Cada vez mais banalizada, a corrupção acaba com o país

Gessi Taborda 

Publicada em 20 de março de 2017 às 08:41:00

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FILOSOFANDO

“Não é a carne que está estragada no Brasil. Nossa classe dirigente e política é moralmente fraca. O país apodreceu.” Expressão do leitor Darin Barbosa, em comentário feito numa fila de supermercado na noite de sexta-feira,17.

CORRUPÇÃO BANALIZADA

O mais triste em tudo isso é constatar a banalização da prática de corrupção nos órgãos públicos e tolerância da própria população com essas práticas criminosas, incapazes de reagir de verdade contra aqueles os representantes dessa decadência moral responsável pela situação desesperadora da economia nacional e comprometedora do nosso futuro como nação. O povo ainda se permite votar em candidatos sujos, comprovadamente enfronhados nos esquemas mais abjetos da canalização de dinheiro público para atender os criminosos do dia em sua ânsia do enriquecimento ilícito.

A Operação Carne Fraca desencadeada pela Polícia Federal é mais uma incontestável evidência de que a corrupção desenfreada de hoje suja não só a imagem do Brasil no exterior, mas afeta de maneira ainda mais negativa a imagem de políticos e partidos, impedindo não apenas que o país avance para outro patamar, condenando-o a viver eternamente na condição de integrante do Terceiro Mundo.

ATÉ OS OSSOS

Não pensem os leitores que o esquema criminoso que colocava ácido ascórbico em carnes vencidas e as reembalavam para venda nos mercados interno e externo não atuou em Rondônia. Por que o poderoso conglomerado da carne (apodrecida, meu Deus!) não aprontou das suas em nosso estado, distribuindo propinas, financiando candidatos e conseguindo (pasmem) os benefícios da renúncia fiscal.

Rondônia não é diferente do resto do Brasil. E não serão as (esfarrapadas) explicações de Valdir Raupp que acabará com a suspeita de que o Poder rondoniense está – como de resto no Brasil – com suas entranhas corroídas pelas práticas desonestas até os ossos.

RISCO

A banalização perfeitamente constatada nas práticas antirepublicanas da política rondoniense pode até aprofundar o risco de que nas eleições de 2018 políticos completamente desconectados das boas práticas, dos compromissos éticos, sejam novamente eleitos.

Afinal, em todas as eleições recentes os resultados tiveram um indiscutível aspecto decepcionante, com o eleitor dando a vitória a políticos que agem absurdamente manipulando o poder para o enriquecimento ilícito e todas as nefandas práticas que aqui se tornam praxe, como o nepotismo, o patrimonialismo e todos os outros “ismos” que nos impede de crescer como sociedade democrática.

VILHENA

Aqui, cidades inteiras dão a impressão de viver um momento de descrença, de que nada mudará. Deve ser por isso que uma cidade do porte de Vilhena (fronteira com o MT) elegeu vários nomes integrantes do farsesco poder público daquela urbe, alguns empossados enquanto estavam atrás das grades.

LENTIDÃO

Com instrumentos do Judiciário atuando lentamente, com a impunidade prevalecendo, a política rondoniense nos seus fundamentos é decepcionante. E assim, para disfarçar, usa-se de forma desbragada a máquina publicitária para maquiar a realidade, iludindo a população vendendo a falsa ideia da existência de “um governo para o povo”.

Se os chamados órgãos de controle externo funcionassem mais rapidamente, certamente esses privilégios dos gatunos do erário não durariam tanto e muita gente que ainda iludem, nas eleições, os eleitores mais desavisados estariam presos.

REAÇÕES

Na capital do estado, Porto Velho, a maioria da população reagiu após quase 8 anos de domínio petista na prefeitura e pelo voto afastou do poder aqueles que exacerbaram nas práticas criminosas de uso da coisa pública em favor próprio ou de apaniguados.

Depois de tudo o que se apurou no executivo da principal cidade rondoniense, até em estatais (que não servem para nada) como a famigerada Emdur, é estranho ver criminosos daquele período petista (alguns levados a uma rápida passagem pela cadeia) ainda estão soltos, com espaço na mídia para deitar falação própria dos facínoras impunes.

E mesmo com a reação demonstrada nas urnas contra os petistas que corroeram até os ossos as instituições por onde passaram. Uma parte do povo ainda permitiu que vereadores acostumados a agir de má-fé permanecessem em seus cargos no desacreditado legislativo municipal.

EFEITO RAUPP

É de se esperar na eleição do próximo ano o aumento das abstenções ao voto popular. Tudo fruto do aumento do descrédito da população com a representação popular, com a decadência dos poderes e notadamente com a demora da Justiça em por um ponto final na impunidade.

Assim deve ser o “efeito Raupp” nas eleições de 2018. É claro que o “efeito Raupp” não é um fato pontual no aumento da descrença do povo. Vai além, muito além, em acontecimentos como as sucessivas maracutaias registradas no jovem parlamente estadual de Rondônia, culminadas na condenação (e até prisão) de pelo menos três ex-presidentes da instituição.

SEM EXPURGO

Como o Judiciário acaba demonstrando-se incapaz de expurgar – pelos instrumentos legais à sua disposição – da vida pública os publicamente reconhecidos ladrões do povo, a população cada vez acredita mais de que não adianta lutar, ir para as ruas, protestar ou mesmo votar. Tudo vai continuar – como é praxe no Brasil – da mesma maneira. A qualidade de nossos políticos tende – nessa perspectiva – até a piorar.

ESPERANÇA

Pretendia continuar na lida do jornalismo por mais alguns anos. Mudei de ideia. Vou – acreditando no apoio de Deus – requerer minha aposentadoria nesse ano. O desencanto com a política me estimula a isso, além do fato da minha mulher, a dra. Conceição Mesquita Taborda ter conseguido, finalmente, sua transposição para o Governo Federal.

Tinha esperanças de ver antes de encerrar essa longa caminhada uma política rondoniense saneada, recuperada, pelo menos nos níveis do que já tivemos aqui no começo de nosso parlamento. A esperança não vai se realizar, nosso povo está acomodado e aceitando como normal a decadência presente.

ESPARRELA

No momento em que se fala tanto da sucessão estadual – com pouquíssimos pretendentes que merecem verdadeiramente respeito pela sua consistência ética e por uma visão factível de um futuro de avanços para todos os rondonienses – temo que possamos mais uma vez cair na esparrela de que o eleitorado ingênuo e desinformado, dependente, vai de novo eleger populistas, demagogos, corruptos, incompetentes mantendo esse ciclo vicioso em desfavor de Rondônia.

REAJAM

Já que no geral a população chega muito perto da inanição política, deixa de reagir por acreditar que não tem jeito mesmo, resta-nos como última esperança que o punhado de homens e mulheres (que devem existir), existentes nos poderes de defesa dos interesses do povo, reajam contra os que buscam na política instrumentos de corrupção.

Enquanto a política for covil daqueles que infernizam o povo, seguindo os maus mandamentos da vida pública não haverá saída ou solução.

O Brasil e o próprio estado rondoniense continuarão sendo a terra da carne fraca e os maus políticos continuarão dando o tom de como deve ser a vida de todos nós. É realidade é dura, mas, por favor, não desistam.

NADA A LAMENTAR

Vários políticos e até algumas instituições fizeram publicar no domingo notas fúnebres lamentando a morte de um personagem controverso em Rondônia.

Sem a hipocrisia comum ao mundo político, pode-se dizer que não há nada a lamentar sobre a morte de um personagem controverso e marcado por papeis de violência, especialmente pelas sendas sombrias da época do garimpo. Não há o que lamentar e nem o que reverenciar sobre um personagem que tanto mal fez a famílias humildes, chegando a ameaçar até jornalistas que não conseguiu comprar. De um personagem como esse, só aqueles com o cérebro entupido de algodão, ignorantes sobre o mal entrariam na empulhação de chorar por ficar livre do feio – em todos os sentidos – personagem.