Mutum-pinima é reencontrado após 40 anos

Em expedição científica, pesquisadores do Cemave, parceiros e indígenas localizaram a ave na região do mosaico do Gurupi, no Maranhão.

Comunicação ICMBio
Publicada em 07 de dezembro de 2017 às 15:12
Mutum-pinima é reencontrado após 40 anos

Pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) encontraram uma das aves mais raras e ameaçadas do Brasil: o lendário mutum-pinima (Crax fasciolata pinima). A espécie foi encontrada na região do mosaico do Gurupi, no Maranhão. "Essa ave é considerada um dos cracídeos mais ameaçados do mundo e não era registrado pela ciência há cerca de 40 anos (os últimos registros documentados datam do final da década de 1970)", comemora o analista ambiental do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave) do ICMBio, Diego Mendes.

Acompanhado pelos indígenas, a expedição científica passou dias na busca do mutum-pinima no mosaico do Gurupi. "Já estávamos sem expectativa, até que ouvimos o canto característico de alerta da ave. Era um macho que caminhava por trás do cipoal, porém, muito arisco, rapidamente voou para a copa de uma árvore, escondendo-se entre a folhagem. Mais ao longe uma fêmea foi avistada. A essa altura a equipe já não se continha de felicidade. E com toda razão, pois há 40 anos a ciência não documentava essa espécie na natureza", relata.

A expedição também encontrou outras espécies raras ou ameaçadas como o mutum-cavalo (Pauxi tuberosa), a jacupiranga (Penelope pileata), o jacamim-de-costas-escuras (Psophia obsura), a ararajuba (Guaruba guarouba) e o macaco-caiarara (Cebus kaapori). Além da busca em campo, foram instaladas armadilhas fotográficas na região e aplicados questionários junto às comunidades, para obter pistas e informações sobre a ocorrência do mutum-pinima.

A equipe, além de registrar a espécie, também buscou informações sobre o habitat do mutum-pinima. Durante a expedição, muitas pistas sobre a ocorrência da espécie foram obtidas. Com informações dos indígenas, eles recolheram dados sobre os hábitos do mutum-pinima (alimentação, repouso e reprodução). "Essas informações são muito importantes, pois irão auxiliar nas futuras expedições de busca. Um casamento perfeito entre conhecimento científico e conhecimento tradicional dos povos indígenas, auxiliando na conservação desta espécie", ressalta o analista ambiental do Cemave, Emanuel Barreto.

A ave ainda sobrevive na unidade de conservação do Gurupi. "Isso reforça a necessidade de integração da Rebio do Gurupi com as terras indígenas circunvizinhas, visando maior proteção dos últimos remanescentes de floresta amazônica do estado do Maranhão e investimento em pesquisa, educação ambiental e recuperação de habitat, especialmente de matas ciliares e formação de corredores ecológicos para conexão das áreas protegidas", ressalta o pesquisador do Cemave, Diego Mendes. Ele ainda defende a criação de novas unidades de conservação na região, a fim de aumentar as áreas protegidas que possam servir de refúgio para o mutum-pinima e as demais espécies ameaçadas e endêmicas do Centro de Endemismo Belém.

Ameaças 

As principais ameaças ao mutum-pinima é o desmatamento e a caça, que ainda é praticada contra a espécie. De acordo com o pesquisador, uma das maneiras mais eficientes e comprovadamente reconhecidas como uma salvaguarda de longo prazo é a criação em cativeiro. "Os cracídeos são facilmente mantidos e reproduzem-se em cativeiro com relativa facilidade, e, o Brasil, felizmente, possui criadores experientes para lidar com estas aves, ampliando as chances de sucesso", informa Luís Fábio Silveira, Curador da Seção de Aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo.

Descrito como subespécie do mutum-de-penacho (Crax fasciolata) no final do século XIX, o mutum-pinima é endêmico do Centro de Endemismo Belém, região localizada a leste do rio Tocantins, abrangendo o nordeste do Pará e a Amazônia Maranhense. Estudos genéticos e morfológicos, ainda em andamento, conduzidos pelas equipes dos professores Luís Fábio Silveira (USP) e Mercival Francisco, da UFSCar, indicam que este mutum deva ser reconhecido como uma espécie plena, completamente distinta de Crax fasciolata.

A expedição científica foi planejada pelo pesquisador do Cemave Diego Mendes e pelo professor Luís Fábio Silveira, curador da Seção de Aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. A busca pela ave ainda contou com a parceira da equipe de servidores da Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi do ICMBio e com o apoio do Programa ARPA (Programa de Áreas Protegidas da Amazônia), indígenas, e os pesquisadores Cesar Medolago (UFSCar), Flavio Ubaid (UEMA) e Carlos Martinez (UFMA).

Pesquisadores gravaram canto da ave 
Autoria: Diego Mendes

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