Reforma Protestante: 500 anos, e agora?

A comemoração dos 500 anos da chamada Reforma Protestante não pode passar indiferente a qualquer ramo do cristianismo, nem a comunidade não religiosa que vive no Ocidente.

Aluizio Vidal*
Publicada em 31 de outubro de 2017 às 09:28

A comemoração dos 500 anos da chamada Reforma Protestante não pode passar indiferente a qualquer ramo do cristianismo, nem a comunidade não religiosa que vive no Ocidente, mas certamente deve levar à uma séria reflexão as pessoas que se consideram herdeiras deste evento.

O mundo ocidental do século XVI havia se rendido não ao cristianismo, mas ao eclesiocentrismo. Julgava tudo a partir da lógica da  Igreja e por diversas vezes, de dentro dela própria, pessoas e movimentos tentaram trazer de volta os princípios mais parecidos com o Cristo. Alguns destes foram Francisco de Assis, Pedro Valdo, John Wicliff, John Huss e tantas outras personagens desconhecidas. O poder, o interesse financeiro e a indiferença à Bíblia Sagrada mantiveram o clero cada vez mais distante dos ideais verdadeiramente cristãos.

Isso alimentou por séculos a ignorância das massas, o poder dos monarcas e os privilégios feudais que escravizava as pessoas, impedia o desenvolvimento da ciência e transformava o cristianismo em qualquer coisa, menos num movimento comprometido com o exemplo e com as propostas de Jesus.

Martinho Lutero foi o corajoso monge alemão que, em 1517, se contrapôs ao vendedor de indulgências João Tetzel, confrontando o comércio da fé e, posteriormente, o poder atribuído aos homens e à instituição e a indiferença social que alimentava uma massa de analfabetos e ignorantes cada vez mais crescente.

A Reforma promoveu a liberdade de consciência, empoderamento espiritual, educação pública, autonomia à ciência e crescimento econômico contrastante com o feudalismo da época, mais tarde cantado por Max Weber como ambiente promotor do capitalismo.

Houve uma cisão, com comunidades teologicamente melhoradas, centrada na salvação unicamente pela graça. Houve uma melhora da Igreja Católica Romana, principalmente com a Contra Reforma e, bem recentemente com o Concílio Vaticano 2.  Houve a importante definição da Bíblia como única regra de fé e de prática para os cristãos protestantes. Houve a liberdade de se criar novas comunidades independentes. Houve grande expansão missionária, quando muitos povos puderam conhecer a Jesus. Enfim, isso mudou o modo ocidental de viver.

Nossa grande questão, então, é: a igreja pós reforma que vivenciamos hoje se parece com a proposta do Cristo? Há práticas que transforma a Igreja em algo que em nada se parece com o Cristianismo? O que fazer?

Como ser igreja permanente num mundo em transformação? Primeiro, precisamos nos voltar à Escritura de forma inteligente e autêntica; segundo, precisamos de uma geração de líderes que não pensem exclusivamente em si, mas realmente no bem estar da comunidade; terceiro, precisamos que as igrejas definam que o seu exemplo cristão (ser) é muito mais importante do que o poder material (ter); quarto, precisamos de igrejas firmes em tratar dos seus pecados, para que sejam luz num mundo em trevas, sendo exemplo e proclamadora de amor, justiça, fé e esperança.

Psicólogo clínico e pastor presbiteriano*

Comentários

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    j paulo 31/10/2017

    Resumindo, foi o mesmo que aconteceu com dilma/temer, um se volta contra o outro para fazer pior do que o acusado, inclusive o tema central de agora é reforma. Aqueles sobreviveram ate os dias atuais em polos diferentes pregando o mesmo ideal. Verdade da história nunca contada, que os verdeiros protestantes foram os batistas, lutero mais propagandista levou a fama.

  • 2
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    Roque de Oliveira 31/10/2017

    Por outro lado, após 500 anos, seria verdade que os irmãos luteranos e a igreja católica voltaram a se dar as mãos por uma convivência pacífica? louvável, no entanto, em não havendo mais protestantes, a comprovação de Lutero, das suas teses em esclarecer que a salvação é unicamente pela Graça de Jesus Cristo e não pela compra de indulgências, fica estabelecido também que não há nenhum outro intercessor entre o homem e Deus, somente Jesus Cristo? Isso para que fique definido exatamente o que dizia o padre alemão, denominado de "justificação pela fé" somente em Jesus Cristo.

  • 3
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    Telma Rodrigues 31/10/2017

    Excelente enfoque, Sr. Vidal ! Parte do cristianismo hodierno precisa, e muito, rever algumas práticas capitalistas, pois diversos líderes de Pseudo-Igrejas continuam a vender milagres e indulgências... A Reforma precisa atingi-los, também. Aproveito para parabenizar a iniciativa da Faculdade Católica, que no final de semana passado promoveu um minicurso sobre os 500 da Reforma. O palestrante veio das Minas Gerais e é um Pós-doutorando em Teologia, pertencente a uma Igreja Evangélica. Exemplo de tolerância e sinal de que a Reforma prossegue, para os verdadeiros cristãos.

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