Réquiem para dois uísques
Nesse tempo, só podia beber rum com coca num crediário que eu tinha no bar de Creusa, que ficava embaixo de um cabaré ao lado da faculdade de direito.
Era mais um sábado preguiçoso. Eu vadeava por uma loja especializada em uísque na cidade. Mais para ver que para comprar. O vendedor, mesmo sem eu perguntar, noticiava dois óbitos: “a Johnnie Walker encerrou a produção das versões Green Label e Gold Label, respectivamente, 15 e 18 anos”.
Perguntei – mais por curiosidade que por interesse - o motivo da decisão, mas ele não soube responder. Por fim, o vendedor insinuou que poderia ser jogo de marketing da empresa que fabrica o produto. Como não entendo de administração – não sei administrar nem minha vida – concordei com ele e me dirigi a outra seção da loja, a fim de explorar prateleiras ainda não visitadas.
Nunca fui muito fã do Green mesmo. A única vez que o provei – e isso numa festa na casa de um amigo - não me aguçou o paladar. Ele é malte puro, isto é, com cereal único. Achei sem graça, com a vênia dos puristas.
Já o Gold, um “blended” extraordinário, eu gostei mais. Filei duas doses uma única vez na casa de um amigo da faculdade. Na verdade, o uísque era do pai dele. Nesse tempo, só podia beber rum com coca num crediário que eu tinha no bar de Creusa, que ficava embaixo de um cabaré ao lado da faculdade de direito da UFPB. Lembrando o Gold Label, até hoje sinto o aroma da fumaça das turfas escocesas (antigas e aceitas), usada para secar os grãos que germinavam com a imersão na água. Um sonho de valsa líquido.
Como escafandrista dos sete bares, continuei minha exploração nos oceanos etílicos da loja. De logo, o vendedor me apresentou a nova versão da “aqua vitae”, o Johnnie Walker Double Black, um Black Label refinado.
Ele me garantiu que esse Double de uísque é diferente dos doublés de novela. Segundo ele, aqui o Double é o verdadeiro protagonista do sabor, inclusive com fabricação mais elaborada e aroma mais amadeirado. Quando ele começou a descrever as qualidades da bebida, cheguei a desconfiar que estava na seção errada. Parecia conversa de vendedor de perfume. O preço me fez desistir da compra. Não cabia no meu fígado.
Noutra prateleira, o vendedor me mostrou o Gold Reserve, cujo rótulo é semelhante ao do Gold Label, mas com uma gigantesca diferença: ele não tem 18 anos. É mais jovem, diria até absolutamente incapaz... A informação foi importante para eu não cair no conto do vigário. Os rótulos são muito parecidos! Beber o Reserve em lugar do Gold 18 anos pode até ser. Mas pagar o preço deste, não dá!
Saí da loja com mãos vazias e a orelha coçando. Depois de perder mais de meia hora comigo, o vendedor não iria deixar minha omissão impune. Coitada de minha mãe...
O Green Label e o Gold Label morreram. Se tivesse um exemplar deles em casa, iria enterrá-lo ainda esta semana. Em generosas 20 doses, o defunto descansaria em paz. Eu ainda tomaria o cuidado de, no derradeiro gole, fazer uma prece para encomendar-lhe a alma. E tocaria um réquiem no piano para homenagear-lhe a lembrança.
Eles morreram! Agora, só nos resta sepultá-los!
Theodorico Gomes Portela Neto é procurador da Fazenda Nacional, Professor e Músico. Escreve semanalmente.