Bandeirantes coloca Lula frente a frente com Flávio Bolsonaro
“O presidente caiu numa arapuca ao aceitar a trocação com um sujeito que só pensou em lacrar e produzir cortes para os tios do zap”, escreve Moisés Mendes
A TV Bandeirantes produziu o primeiro debate vale-tudo da era digital, mas na TV, como se fosse um duelo em ambiente virtual. E Lula caiu na arapuca do formato do confronto com Flávio Bolsonaro, do qual nenhuma outra figura pública sensata poderia sair vencedora.
Flávio e Lula perderam, mas Lula não precisava ter perdido desse jeito. Primeiro, porque sua assessoria e seu comando de campanha aceitaram algo inimaginável como arena de debate para alguém com bom senso.
Não deu certo com Lula e não daria com Simone Tebet, Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Marina Silva ou qualquer outro candidato, mesmo de direita, que se dispusesse a enfrentar Flávio num ringue em que todo tipo de golpe baixo foi aceito. Esta é a arena do fascismo.
A Bandeirantes afastou-se, com esse formato em que os dois passaram o tempo todo se agredindo, da tarefa de propor pautas e formular perguntas sobre temas essenciais. Como as TVs sempre fizeram e continuam fazendo nas democracias, mesmo as precárias.
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A Bandeirantes omitiu-se na mediação de um embate organizado pela sua área de jornalismo e entregou Lula e Flávio ao que chamam de trocação nas lutas ‘modernas’, com socos, chutes, joelhadas e cotoveladas.
A direção de jornalismo da Bandeirantes lavou as mãos, eximiu-se de responsabilidades e largou Lula numa jaula com Flávio. Foi o que se viu e que poderia ter sido pior.
Flávio Bolsonaro produziu lacrações para cortes e ficou, durante todo o tempo em que Lula falava, atrás do adversário. Fez isso para desviar o foco, criar imagens com caras e bocas em tom de deboche, que serão usadas nos cortes, e para tentar desconcentrar Lula.
Flávio se comportou como moleque, e Lula foi cordial demais com um sujeito tosco, que tem conexões com milícias. Os primeiros blocos foram favoráveis a Lula, que encurralou Flávio com perguntas sem resposta, mas o bolsonarista reagiu no final.
E usou o último bloco para fazer o que a extrema direita mais gosta: dizer que vai caçar e prender bandidos, que fará um governo dedicado ao combate não só ao crime organizado, mas também aos ladrões de celulares. A segurança é a grande pauta desta eleição.
Lula o desafiou a abrir o sigilo telefônico e de contas bancárias, para que o eleitor saiba quem é o corrupto, mas também aí parece que o desafio não funcionou. Flávio já havia ficado em pé, depois de ser quase nocauteado nos dois primeiros blocos.
Folha e Estadão ofereceram a Lula a chance de dizer a Flávio, com fatos concretos, que ele é investigado por vínculos com mafiosos das fraudes do INSS. Duas chamadas nos dois jornais pareciam ter sido feitas pelo mesmo editor.
O Globo estampou na capa no domingo: “PF investiga Flávio por suspeita de lavagem de dinheiro com advogado Willer Tomaz”. E a Folha chamou a notícia com este título: “Flávio Bolsonaro é investigado no STF por suspeita de lavagem com advogado do caso INSS”.
Lula não fez nenhuma referência a essas investigações, que os dois jornalões ofereceram como pauta, e de graça, para que fossem usadas no debate. Lula também não disse, ao final, quando Flávio tentou fazer palhaçada às suas costas, que aquele é o sujeito que pretende governar o Brasil.
Mesmo que sua fala tivesse sido interrompida, que a mediadora tivesse pedido a Flávio que ficasse quieto e mesmo que o sujeito continuasse tentando aparecer mais do que o presidente, Lula não disse uma palavra no sentido de denunciá-lo como um despreparado e mal-educado, sem condições de governar o país.
O que ficou provado de novo não traz novidades. Lula é um gênio num palanque e tem desempenhos geralmente brilhantes em entrevistas, como aconteceu na semana passada na sabatina na Globo diante de Renata Lo Prete. Mas é mediano em debates, porque também ele não consegue ser perfeito.
Lula foi cordial demais com o ogro da extrema direita. Faltou, entre os que o alertam para armadilhas, a sabedoria dos velhos companheiros do século 20, que certamente diriam: não entra nessa que é bucha. Lula entrou numa fria e precisa evitar a repetição do vale-tudo no debate de sexta-feira na Globo.
Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.
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