Consulta pública debate Parque Nacional de Tanaru em RO

Proposta de criação do Parque Nacional tem como objetivo proteger área de relevância ambiental e preservar a memória de povo indígena exterminado. Processo de criação segue decisão judicial homologada no ano passado pelo Supremo Tribunal Federal

Fonte: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima - Publicada em 03 de março de 2026 às 19:35

Consulta pública debate Parque Nacional de Tanaru em RO

Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) promoveu, na quinta-feira (26), no município de Cerejeiras, em Rondônia, a consulta pública para a criação do Parque Nacional de Tanaru.

A criação do parque visa garantir a proteção permanente de uma área de grande relevância ambiental e histórica. A região reúne florestas preservadas, rios, nascentes e rica biodiversidade, desempenhando papel essencial na regulação do clima, na qualidade da água e na conservação dos ecossistemas. 

A consulta pública ocorreu no Fórum da Comarca de Cerejeiras e foi aberta à participação de órgãos ambientais, povos indígenas, povos tradicionais, setores produtivos, representantes políticos locais e demais interessados. 

O projeto do Parque Nacional é fruto de uma cooperação interinstitucional no âmbito do governo federal, coordenada pela Casa Civil da Presidência da República, que, além do ICMBio, conta com a participação do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), da Advocacia-Geral da União (AGU), da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Todos os órgãos públicos listados estiveram presentes na consulta pública em Cerejeiras, com seus representantes, para responder às dúvidas relativas ao projeto. 

A Terra Indígena Tanaru, inabitada após o genocídio que culminou com a morte de seu último sobrevivente, conhecido como “Índio do Buraco”, ocorrida em agosto de 2022, servirá como parâmetro para a definição dos limites da unidade de conservação proposta. São cerca de oito mil hectares e está localizada nos municípios rondonienses de Chupinguaia, Corumbiara, Parecis e Pimenteiras do Oeste. 

Durante a audiência, Nimon Oroeu, coordenador da Organização dos Povos Indígenas de Rondônia e Noroeste do Mato Grosso (Opiroma), e Tayla Wajuru, comunicadora da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), leram as recomendações elaboradas pelo movimento indígena. 

Sobre a gestão do Parque, os representantes do movimento fizeram as seguintes recomendações: participação das lideranças indígenas na gestão do parque nacional, apoio à criação de um centro de memória dos povos indígenas que viveram no local e controle das áreas de visitação e das pesquisas a serem desenvolvidas. 

O movimento indígena, que desde dezembro do ano passado vem se reunindo para debater as funcionalidades desta unidade de conservação com características inéditas, sugere que o nome seja Parque Nacional dos Povos Indígenas de Tanaru, proposta que está em discussão.

A consulta pública permanecerá aberta até sexta-feira (6) - Foto: Evandro Fortuna/ICMBio

A consulta pública permanecerá aberta até sexta-feira (6) - Foto: Evandro Fortuna/ICMBio

“Estamos felizes e emocionados ao ver todo esse processo da luta pela vida para manter esse espaço conservado”, declarou Tayla, da Coiab. 

Histórico do território Tanaru 

Ao longo das últimas décadas, o sul de Rondônia tornou-se palco de um processo contínuo de ocupação e violência que marcou profundamente a região da Gleba Corumbiara e resultou no extermínio de povos indígenas inteiros. 

A partir da década de 1970, a intensificação da ocupação não indígena avançou sobre o território, impulsionada por políticas federais de colonização e pela expansão da fronteira agropecuária associada ao Plano de Integração Nacional (PIN). Esse movimento provocou um rápido desmatamento e acirrou conflitos fundiários, estabelecendo um cenário de crescente pressão sobre áreas tradicionalmente ocupadas por povos indígenas. 

Nas décadas de 1980 e 1990, o avanço da fronteira agropecuária aprofundou esse quadro. Territórios localizados nas regiões dos rios Corumbiara, Mequéns e Tanaru passaram a ser sistematicamente invadidos, com registros recorrentes de violência, expulsões forçadas e extermínio de grupos indígenas. Foi nesse contexto que, entre 1995 e 1996, ocorreu o genocídio do povo Tanaru: todos os seus membros foram mortos, restando apenas um único sobrevivente, que passou a viver em isolamento voluntário em meio à expansão de fazendas sobre seu território tradicional. 

Diante da gravidade da situação, entre 1996 e 2015, o Estado brasileiro instituiu e manteve um regime de Restrição de Uso da área por meio de sucessivas portarias da Funai, com atuação continuada da Frente de Proteção Etnoambiental no monitoramento e na proteção territorial. Esse esforço buscou assegurar o isolamento voluntário do indígena Tanaru e culminou, em 2015, na edição da Portaria nº 1.040, que interditou a Terra Indígena Tanaru com cerca de 8 mil hectares. 

Em 2022, o último sobrevivente do povo Tanaru faleceu, em circunstâncias compatíveis com morte natural. No mesmo ano, a destinação da área foi judicializada. Ao analisar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 991, interposta pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a necessidade de uma destinação definitiva para o território, de domínio da União, compatível com os direitos à memória, à verdade, à reparação histórica e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. 

Seu último sobrevivente, conhecido como “Índio do Buraco”, faleceu em agosto de 2022 - Foto: Vicent Carelli/Vídeo nas Aldeias

Seu último sobrevivente, conhecido como “Índio do Buraco”, faleceu em agosto de 2022 - Foto: Vicent Carelli/Vídeo nas Aldeias

Entre 2023 e 2024, um acordo interinstitucional apontou a criação de uma unidade de conservação federal de proteção integral como a alternativa mais adequada para a destinação da área, de forma a garantir sua preservação ambiental permanente e salvaguardar a memória do povo Tanaru. Esse encaminhamento foi aprofundado em 2025, com a elaboração de um Plano de Trabalho interministerial. O plano foi referendado por organizações indígenas e homologado pelo STF. Na sequência, foram realizados estudos técnicos, vistorias de campo e reuniões institucionais com representações indígenas. 

Entre 2025 e 2026, esse processo resultou na consolidação da proposta de criação do Parque Nacional Tanaru, articulando a preservação ambiental com a salvaguarda do patrimônio arqueológico e cultural da área. A iniciativa busca transformar um território marcado por violência e extermínio em um espaço de memória, proteção da biodiversidade e reparação histórica. 

Consulta segue aberta 
 
A consulta pública permanecerá aberta até sexta-feira (6), para o recebimento de novas contribuições, contestações e pedidos de esclarecimento relativos ao Parque Nacional.

Esta é uma das etapas do processo técnico-participativo, regido pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Após o seu encerramento, o processo será encaminhado para análise e aprovação pelo Ministério do Meio Ambiente, encaminhado para observação dos demais ministérios e, na sequência, para decisão final da Presidência da República. 

Consulta pública debate Parque Nacional de Tanaru em RO

Proposta de criação do Parque Nacional tem como objetivo proteger área de relevância ambiental e preservar a memória de povo indígena exterminado. Processo de criação segue decisão judicial homologada no ano passado pelo Supremo Tribunal Federal

Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
Publicada em 03 de março de 2026 às 19:35
Consulta pública debate Parque Nacional de Tanaru em RO

Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) promoveu, na quinta-feira (26), no município de Cerejeiras, em Rondônia, a consulta pública para a criação do Parque Nacional de Tanaru.

A criação do parque visa garantir a proteção permanente de uma área de grande relevância ambiental e histórica. A região reúne florestas preservadas, rios, nascentes e rica biodiversidade, desempenhando papel essencial na regulação do clima, na qualidade da água e na conservação dos ecossistemas. 

A consulta pública ocorreu no Fórum da Comarca de Cerejeiras e foi aberta à participação de órgãos ambientais, povos indígenas, povos tradicionais, setores produtivos, representantes políticos locais e demais interessados. 

O projeto do Parque Nacional é fruto de uma cooperação interinstitucional no âmbito do governo federal, coordenada pela Casa Civil da Presidência da República, que, além do ICMBio, conta com a participação do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), da Advocacia-Geral da União (AGU), da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Todos os órgãos públicos listados estiveram presentes na consulta pública em Cerejeiras, com seus representantes, para responder às dúvidas relativas ao projeto. 

A Terra Indígena Tanaru, inabitada após o genocídio que culminou com a morte de seu último sobrevivente, conhecido como “Índio do Buraco”, ocorrida em agosto de 2022, servirá como parâmetro para a definição dos limites da unidade de conservação proposta. São cerca de oito mil hectares e está localizada nos municípios rondonienses de Chupinguaia, Corumbiara, Parecis e Pimenteiras do Oeste. 

Durante a audiência, Nimon Oroeu, coordenador da Organização dos Povos Indígenas de Rondônia e Noroeste do Mato Grosso (Opiroma), e Tayla Wajuru, comunicadora da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), leram as recomendações elaboradas pelo movimento indígena. 

Sobre a gestão do Parque, os representantes do movimento fizeram as seguintes recomendações: participação das lideranças indígenas na gestão do parque nacional, apoio à criação de um centro de memória dos povos indígenas que viveram no local e controle das áreas de visitação e das pesquisas a serem desenvolvidas. 

O movimento indígena, que desde dezembro do ano passado vem se reunindo para debater as funcionalidades desta unidade de conservação com características inéditas, sugere que o nome seja Parque Nacional dos Povos Indígenas de Tanaru, proposta que está em discussão.

A consulta pública permanecerá aberta até sexta-feira (6) - Foto: Evandro Fortuna/ICMBio

A consulta pública permanecerá aberta até sexta-feira (6) - Foto: Evandro Fortuna/ICMBio

“Estamos felizes e emocionados ao ver todo esse processo da luta pela vida para manter esse espaço conservado”, declarou Tayla, da Coiab. 

Histórico do território Tanaru 

Ao longo das últimas décadas, o sul de Rondônia tornou-se palco de um processo contínuo de ocupação e violência que marcou profundamente a região da Gleba Corumbiara e resultou no extermínio de povos indígenas inteiros. 

A partir da década de 1970, a intensificação da ocupação não indígena avançou sobre o território, impulsionada por políticas federais de colonização e pela expansão da fronteira agropecuária associada ao Plano de Integração Nacional (PIN). Esse movimento provocou um rápido desmatamento e acirrou conflitos fundiários, estabelecendo um cenário de crescente pressão sobre áreas tradicionalmente ocupadas por povos indígenas. 

Nas décadas de 1980 e 1990, o avanço da fronteira agropecuária aprofundou esse quadro. Territórios localizados nas regiões dos rios Corumbiara, Mequéns e Tanaru passaram a ser sistematicamente invadidos, com registros recorrentes de violência, expulsões forçadas e extermínio de grupos indígenas. Foi nesse contexto que, entre 1995 e 1996, ocorreu o genocídio do povo Tanaru: todos os seus membros foram mortos, restando apenas um único sobrevivente, que passou a viver em isolamento voluntário em meio à expansão de fazendas sobre seu território tradicional. 

Diante da gravidade da situação, entre 1996 e 2015, o Estado brasileiro instituiu e manteve um regime de Restrição de Uso da área por meio de sucessivas portarias da Funai, com atuação continuada da Frente de Proteção Etnoambiental no monitoramento e na proteção territorial. Esse esforço buscou assegurar o isolamento voluntário do indígena Tanaru e culminou, em 2015, na edição da Portaria nº 1.040, que interditou a Terra Indígena Tanaru com cerca de 8 mil hectares. 

Em 2022, o último sobrevivente do povo Tanaru faleceu, em circunstâncias compatíveis com morte natural. No mesmo ano, a destinação da área foi judicializada. Ao analisar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 991, interposta pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a necessidade de uma destinação definitiva para o território, de domínio da União, compatível com os direitos à memória, à verdade, à reparação histórica e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. 

Seu último sobrevivente, conhecido como “Índio do Buraco”, faleceu em agosto de 2022 - Foto: Vicent Carelli/Vídeo nas Aldeias

Seu último sobrevivente, conhecido como “Índio do Buraco”, faleceu em agosto de 2022 - Foto: Vicent Carelli/Vídeo nas Aldeias

Entre 2023 e 2024, um acordo interinstitucional apontou a criação de uma unidade de conservação federal de proteção integral como a alternativa mais adequada para a destinação da área, de forma a garantir sua preservação ambiental permanente e salvaguardar a memória do povo Tanaru. Esse encaminhamento foi aprofundado em 2025, com a elaboração de um Plano de Trabalho interministerial. O plano foi referendado por organizações indígenas e homologado pelo STF. Na sequência, foram realizados estudos técnicos, vistorias de campo e reuniões institucionais com representações indígenas. 

Entre 2025 e 2026, esse processo resultou na consolidação da proposta de criação do Parque Nacional Tanaru, articulando a preservação ambiental com a salvaguarda do patrimônio arqueológico e cultural da área. A iniciativa busca transformar um território marcado por violência e extermínio em um espaço de memória, proteção da biodiversidade e reparação histórica. 

Consulta segue aberta 
 
A consulta pública permanecerá aberta até sexta-feira (6), para o recebimento de novas contribuições, contestações e pedidos de esclarecimento relativos ao Parque Nacional.

Esta é uma das etapas do processo técnico-participativo, regido pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Após o seu encerramento, o processo será encaminhado para análise e aprovação pelo Ministério do Meio Ambiente, encaminhado para observação dos demais ministérios e, na sequência, para decisão final da Presidência da República. 

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