O movimento Red Pill precisa ser criminalizado com urgência
Agressores de mulheres precisam resgatar a sua masculinidade na cadeia, adverte Ricardo Nêggo Tom
Brasília (DF) - 07/12/2025 - O Levante Mulheres Vivas realiza ato na área central de Brasília para denunciar o feminicídio e todas formas de violência contra mulheres (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Andrew Tate é um empresário e ex-lutador de kickboxer que ficou conhecido na internet como o rei da masculinidade tóxica. Autodenominado misógino, ele coleciona uma série de polêmicas e crimes relacionados à violência contra a mulher, incluindo acusações de estupros e exploração sexual. Ícone da cultura Red Pill, seus "ensinamentos" defendem que a mulher pertence ao homem como uma propriedade, e sua existência deve se restringir a manutenção do lar e a satisfação pessoal e sexual do marido. Identificado com a extrema-direita, e incensado por conservadores estadunidenses como Tucker Carlson e Candace Owens, que já defenderam publicamente a sua "visão tradicional" de masculinidade, Tate influencia jovens de todo mundo através das redes sociais, sendo reconhecido como um grande macho alfa na guerra cultural de gênero.
É de autoria de Tate, a frase estampada na camisa de um dos jovens acusados de participação no estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro. A frase “Regret nothing”, que significa “Não se arrependa de nada”, evidencia o potencial criminoso do movimento Red Pill em sua dinâmica discursiva, quando um homem preso sob acusação de organizar um estupro coletivo dentro de seu apartamento, comparece à delegacia e se permite filmar pelas câmeras de televisão trajando uma blusa com o lema de tal movimento. Vitor Hugo Oliveira Simonin, o jovem suspeito de estupro em questão, quis esfregar na cara da sociedade, sobretudo, das mulheres, a masculinidade tóxica e criminosa absorvida na ideologia Red Pill. A ideia de que homem que é homem não se arrepende do que faz, mesmo que ele tenha cometido um crime, é o puro suco da deturpação de caráter sob a égide da "macheza" e da honra. Algo que precisa ser criminalizado diante do aumento alarmante dos casos de feminicídio no país.
A cultura Red Pill se propõe a aconselhar homens sobre como lidar com as mulheres, e a colocá-las em seus devidos lugares. Lugares geralmente de opressão, submissão e violência verbal e física. Para um Red Pill, as mulheres ideais para se relacionar têm entre 18 e 19 anos de idade, o que lhes sugere pouca ou nenhuma experiência sexual com outros homens. Coaches do movimento costumam estimular ódio e rejeição contra mulheres acima de 30 anos, as quais eles chamam de "rodadas" e "desprezíveis" para se constituir um relacionamento sério. Mulheres solteiras e com filhos também são alvos do discurso potencialmente criminoso da quadrilha de machos. Chamadas pejorativamente de "mães solteiras", e tendo seus filhos classificados como "bagagem', essas mulheres são vistas pelos Red Pills como mulheres sem valor, e os homens que se relacionam com elas são chamados de "Beta", o que na linguagem Red Pill significa um macho de segunda categoria. Um homem frouxo e sentimental que aceita criar o filho de outro homem e se contenta com o resto (a mulher) que este homem deixou. Uma ode ao ódio e a violência de gênero.
O chamado "código Red Pill" está cada vez mais presente entre os jovens. Principalmente, quando estes jovens se sentem rejeitados pelas mulheres e não sabem lidar com tal negativa. Chamo a atenção para uma trend batizada de “Caso ela diga não” que circula pelas redes sociais, na qual homens - em grande maioria jovens - ensaiam uma reação violenta caso o seu pedido de namoro ou casamento seja rejeitado pela mulher que ele deseja. De faca a revólver, o que se vê é o estímulo ao feminicídio de forma lúdica e despreocupada com possíveis problemas judiciais ou implicações criminais. É a barbárie feminicida se impondo diante de todo o trabalho de combate à violência contra a mulher que vem sendo feito nos últimos tempos. E por que diabos, digo, Red Pills, esse trabalho não vem surtindo efeito? A lei não vem sendo cumprida ou ela é branda demais na punição desses casos? Deixo essa questão como reflexão, mas não sem antes ligar o movimento Red Pill aos tais valores conservadores da família tradicional brasileira. A começar pelo silêncio ensurdecedor da igreja e de seus líderes diante dessa tragédia misógina que nos assola. E quem não se sente assolado por toda essa violência contra as mulheres, é cúmplice dela. Ou, talvez, seja um feminicida em potencial.
Os cristãos red pills estão proliferando nas redes sociais defendendo o resgate da masculinidade com base na palavra de Deus. Os “Legendários” – grupo de homens ligados à igreja evangélica que se reúnem nas montanhas para orar e recuperar a masculinidade perdida – é um bom exemplo de como o machismo contido na Bíblia serve como referência para a manutenção da violência contra a mulher. Esses homens ditos evangélicos costumam valorizar conquistas pessoais e financeiras, atribuindo-as ao nível de masculinidade do indivíduo e a sua capacidade de gerar riqueza a partir dele. Não à toa, a brincadeira de escoteiro que eles chamam de resgate da masculinidade, é apenas para homens que tenham dinheiro para pagar a inscrição que custa entre R$ 1.200,00 e R$ 1.900,00, dependendo do nível de masculinidade pretendida. Segundo eles, homens que não são “bem sucedidos” são fracos e não possuem masculinidade suficiente para “prosperar”. É o que os Red Pills chamam de “macho beta”.
Fiquei pensando aqui sobre algo que me ocorreu com relação à família tradicional, Red Pills, Legendários, e outras ideologias que se associam ao cristianismo e dizem ter Jesus como referência. O que essa turma de masculinidade tóxica pensa sobre José, o pobre carpinteiro que foi pai adotivo de Jesus, e assumiu Maria com um filho nos braços sem questionar como se deu a sua concepção? De acordo com o pensamento Red Pill, José deveria ser um Beta, um homem sem masculinidade que assumiu um filho que não era dele e acreditou que foi um anjo que fez Maria ficar grávida. Além de potencialmente criminoso, tal movimento é incoerente, uma vez que eles têm como referência uma sagrada família constituída fora dos meios que eles consideram tradicionais e honrosos para um homem. Um carpinteiro teria dinheiro para ser um legendário nos dias atuais? Seria aceito e visto no grupo como um homem bem sucedido? Um Red Pill evangélico se casaria com uma “mãe solteira”? Será que eles realmente entendem a história de vida de Jesus Cristo? Será que eles realmente entendem suas próprias vidas? Será que são homens mesmo?
Jesus Cristo também não deveria ser considerado um macho beta por esta organização criminosa disfarçada de ideologia masculina? Afinal, ele impediu que uma mulher adúltera fosse apedrejada. Algo que os “alfas” jamais fariam. Pelo contrário, eles teriam organizado uma trend intitulada “se ela me trair”, e demonstrado todo o amor cristão contido em seus corações feminicidas. O coach e influenciador Thiago Schutz, conhecido como o “calvo do campari”, é uma espécie de Andrew Tate brasileiro. Seu pensamento e comportamento são tão alinhados ao seu guru estadunidense, que ele foi preso em flagrante por violência doméstica após agredir a própria namorada no interior de São Paulo, em novembro passado. Como um bom macho alfa, o frouxo do bitter clássico apagou suas redes sociais e anda sumido da internet. Possivelmente está resgatando a sua masculinidade no alto de alguma montanha e preparando um retorno triunfal. As mulheres que se cuidem. Um Red Pill vingativo é capaz de coisas terríveis. Menos ser machão com outros homens.
A “machosfera” virtual precisa ser enquadrada e criminalizada, para que o mundo real não continue hospitalizando e sepultando mulheres vítimas de sua insegurança, fragilidade emocional e tendência homicida. Todo esse conteúdo pobre de espírito e podre de alma precisa ser removido da internet, e seus produtores indiciados por incitação à violência de gênero. Homens reds e de “pill pill” pequeno e contraproducente, precisam se arrepender de seus discursos misóginos e machista, e entender que o seu ódio contra as mulheres, ou a sua inadequação social com relação ao sexo oposto, não podem ser, e não serão normalizados. E precisamos ir mais além nesse debate, sem passar pano para outras situações que também normalizam a misoginia e incentivam a cultura do estupro na sociedade. Como a letra de algumas músicas que apresentam as mulheres como objetos e alvos de investidas sexuais violentas. Como o funk “Surubinha de leve” cantado por um tal de MC Diguinho, que recomenda “pode vim sem dinheiro, mas traz uma piranha, aí. Taca a bebida, depois taca a pica”
Defender esse tipo de “música” como cultura da favela, é criminalizar as periferias e desmoralizar a história de grandes músicos e compositores oriundos de comunidades, como Cartola, Luiz Melodia, Ivo Meirelles, Pretinho da Serrinha, Xande de Pilares, Monarco, entre tantos outros, que nunca se prestaram a produzir musicalmente o que eles deveriam depositar na latrina. Apologia ao crime não é cultura. A favela não é uma fábrica de criminosos. Mulheres não podem continuar sendo alvos de discursos de ódio, sejam eles lúdicos ou ideológicos. Todos nós devemos reagir juntos a esta violência. Do contrário, iremos chorar juntos no sepultamento de nossas filhas, sobrinhas, afilhadas, tias, mães, avós, netas, amigas, vizinhas...
Ricardo Nêggo Tom
Músico, graduando em jornalismo, locutor, roteirista, produtor e apresentador dos programas "Um Tom de resistência", "30 Minutos" e "22 Horas", na TV 247, e colunista do Brasil 247
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