PF confirma autoria de Tiradentes no 'Livro de Tiradentes'

A ação é resultado de uma parceria entre o Ibram e a Polícia Federal, voltada ao aprofundamento da pesquisa histórica sobre um dos documentos mais emblemáticos do acervo museológico brasileiro

Fonte: Assessoria de Comunicação – Ibram/Museu da Inconfidência - Publicada em 22 de abril de 2026 às 08:34

PF confirma autoria de Tiradentes no 'Livro de Tiradentes'

Descoberta reforça o valor documental do exemplar sob guarda do Museu da Inconfidência e amplia a compreensão sobre a participação intelectual de Tiradentes na Inconfidência Mineira, projetando novos desdobramentos para a pesquisa histórica e para a memória pública

O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), por meio de iniciativa do Museu da Inconfidência, torna público o resultado de laudo pericial elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal que confirma a autoria de Tiradentes nas anotações manuscritas presentes no chamado “Livro de Tiradentes”. O documento, um exemplar da obra Recueil des loix constitutives des colonies angloises, confédérées sous la dénomination d’États-Unis de l’Amérique septentrionale [Coleção das leis constitutivas das colônias inglesas, confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América setentrional], integra o acervo do Arquivo Histórico do Museu e está entre os testemunhos documentais mais emblemáticos da Inconfidência Mineira. 

A ação é resultado de uma parceria entre o Ibram e a Polícia Federal, voltada ao aprofundamento da pesquisa histórica sobre um dos documentos mais emblemáticos do acervo museológico brasileiro. 

A obra foi submetida a exame grafoscópico no Serviço de Perícias Documentoscópicas (SEP-DOC), com o objetivo de verificar a autoria das anotações manuscritas atribuídas a Tiradentes. A análise concentrou-se em anotações de leitura presentes em páginas específicas do volume, sendo examinados elementos gráficos que correspondem a características de gênese gráfica, associadas a movimentos automatizados da escrita, de difícil imitação ou reprodução deliberada. 

A conclusão pericial indica que não foram identificados elementos que colocassem em dúvida a compatibilidade das anotações com a autoria de Joaquim José da Silva Xavier. 

A descoberta atribui novo alcance histórico ao volume. Com a confirmação da autoria das anotações, o exemplar deixa de ser apenas um objeto associado ao universo político do final do século XVIII e passa a constituir evidência material direta da relação de Joaquim José da Silva Xavier com a leitura, a circulação e a apropriação de ideias políticas modernas. 

Para a presidenta do Ibram, Fernanda Castro, a confirmação representa “escutar a voz de Tiradentes mais uma vez”. Segundo ela, o resultado evidencia também o papel dos museus como instituições de pesquisa, produção de conhecimento e inovação, capazes de articular ciência e memória na construção de novas interpretações sobre a história do Brasil.  

O diretor do Museu da Inconfidência, Alex Calheiros, reforça que o livro deixa de ser um indício e passa a ser uma prova material.  O laudo eleva enormemente o valor histórico e afetivo do bem, oferecendo novas camadas de entendimento sobre a figura de Tiradentes. 

O 21 de Abril e o Legado de Tiradentes 

A confirmação da autoria ocorre em um momento simbólico, aproximando-se do dia 21 de abril, feriado nacional que recorda o sacrifício de Tiradentes. Joaquim José da Silva Xavier foi o principal rosto da Inconfidência Mineira, movimento de rebelião do século XVIII que pretendia libertar o Brasil do domínio português. 

Dentre os conjurados, Tiradentes destacou-se por ser um dos mais ativo na propagação dos ideais de liberdade, sendo o único a receber a pena de morte após os Autos da Devassa: o processo judicial da Coroa Portuguesa que incriminou os inconfidentes e no qual este livro foi citado diversas vezes como prova. Sua execução e o subsequente esquartejamento o transformaram no maior símbolo da luta pela independência e da identidade republicana brasileira. 

Publicado em Paris, em 1778, em língua francesa e dedicado a Benjamin Franklin, o Recueil reúne documentos constitucionais fundamentais dos Estados Unidos da América, entre eles a Declaração de Independência, a primeira redação dos Artigos de Confederação e constituições de seis dos treze primeiros estados norte-americanos. Embora a folha de rosto indique a Filadélfia como local de publicação, a obra foi impressa em Paris, com apoio clandestino do governo francês, no contexto da Guerra de Independência dos Estados Unidos. 

Foi nesse ambiente de circulação atlântica de ideias que o exemplar chegou à América portuguesa. Inspirados pelo êxito da Revolução Americana, os inconfidentes encontraram nesses textos referências para imaginar novos arranjos políticos para o Brasil. O volume posteriormente conhecido como “Livro de Tiradentes” foi levado a Minas Gerais, em 1788, por ex-alunos brasileiros da Universidade de Coimbra, José Álvares Maciel e José Pereira Ribeiro. Pouco antes de sua prisão, em 10 de maio de 1789, no Rio de Janeiro, Tiradentes teria entregue o livro a Francisco Xavier Machado, porta-estandarte dos Dragões de Minas, com a missão de levá-lo de volta à capitania. Após a prisão, a obra foi apreendida e tornou-se peça central de investigação paralela à devassa instaurada pelas autoridades portuguesas. 

Depois de permanecer por 124 anos na Biblioteca Pública de Santa Catarina, em Florianópolis, o volume retornou a Ouro Preto em 21 de abril de 1984. A restituição, articulada pelo então governador de Minas Gerais Tancredo Neves junto ao governo de Santa Catarina, representou um gesto de reparação histórica e de reafirmação do valor simbólico do patrimônio cultural brasileiro. Desde então, o exemplar integra o acervo do Arquivo Histórico do Museu da Inconfidência. 

Do ponto de vista historiográfico, o resultado da perícia amplia a compreensão sobre a atuação de Tiradentes no movimento. Os “Autos de Devassa” já indicavam que ele portava o livro, o mostrava a outras pessoas e solicitava a tradução de trechos específicos. A confirmação de que também são suas as anotações manuscritas presentes no volume acrescenta uma evidência decisiva: Tiradentes não apenas teve contato com essas ideias, mas interveio diretamente sobre o texto como leitor ativo. 

A descoberta contribui, assim, para qualificar a compreensão de sua participação na Inconfidência Mineira, afastando interpretações simplificadoras que o reduziram exclusivamente à condição de homem de ação ou mártir político. O documento passa a indicar, com maior segurança, sua relação concreta com livros, linguagens políticas e debates de alcance internacional em circulação no mundo atlântico de fins do século XVIII. Em lugar de reiterar velhas concepções sobre sua figura histórica, a nova evidência a restitui em maior complexidade, em conexão com debates políticos de alcance internacional. 

Do ponto de vista patrimonial e museológico, o “Livro de Tiradentes” passa a ocupar posição ainda mais singular no acervo do Museu da Inconfidência. Além de obra rara, o exemplar se afirma agora como documento capaz de aproximar o público, de maneira concreta, da experiência histórica da Inconfidência Mineira, ampliando seu potencial de pesquisa, preservação, exposição e difusão qualificada do patrimônio cultural brasileiro. 

Para o Museu da Inconfidência, a perícia representa também um marco institucional. O resultado reafirma a importância da investigação técnica e da preservação qualificada dos acervos históricos, além de fortalecer o compromisso do Museu com a produção de conhecimento, com a revisão crítica de narrativas consolidadas e com a ampliação do acesso público a interpretações historicamente consistentes sobre personagens e processos centrais da história do Brasil. 

O Museu dará continuidade às ações de pesquisa, difusão e comunicação relacionadas ao exemplar, de modo a compartilhar com o público e com a comunidade acadêmica os desdobramentos da descoberta e sua importância para a compreensão renovada da Inconfidência Mineira. 

PF confirma autoria de Tiradentes no 'Livro de Tiradentes'

A ação é resultado de uma parceria entre o Ibram e a Polícia Federal, voltada ao aprofundamento da pesquisa histórica sobre um dos documentos mais emblemáticos do acervo museológico brasileiro

Assessoria de Comunicação – Ibram/Museu da Inconfidência
Publicada em 22 de abril de 2026 às 08:34
PF confirma autoria de Tiradentes no 'Livro de Tiradentes'

Descoberta reforça o valor documental do exemplar sob guarda do Museu da Inconfidência e amplia a compreensão sobre a participação intelectual de Tiradentes na Inconfidência Mineira, projetando novos desdobramentos para a pesquisa histórica e para a memória pública

O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), por meio de iniciativa do Museu da Inconfidência, torna público o resultado de laudo pericial elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal que confirma a autoria de Tiradentes nas anotações manuscritas presentes no chamado “Livro de Tiradentes”. O documento, um exemplar da obra Recueil des loix constitutives des colonies angloises, confédérées sous la dénomination d’États-Unis de l’Amérique septentrionale [Coleção das leis constitutivas das colônias inglesas, confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América setentrional], integra o acervo do Arquivo Histórico do Museu e está entre os testemunhos documentais mais emblemáticos da Inconfidência Mineira. 

A ação é resultado de uma parceria entre o Ibram e a Polícia Federal, voltada ao aprofundamento da pesquisa histórica sobre um dos documentos mais emblemáticos do acervo museológico brasileiro. 

A obra foi submetida a exame grafoscópico no Serviço de Perícias Documentoscópicas (SEP-DOC), com o objetivo de verificar a autoria das anotações manuscritas atribuídas a Tiradentes. A análise concentrou-se em anotações de leitura presentes em páginas específicas do volume, sendo examinados elementos gráficos que correspondem a características de gênese gráfica, associadas a movimentos automatizados da escrita, de difícil imitação ou reprodução deliberada. 

A conclusão pericial indica que não foram identificados elementos que colocassem em dúvida a compatibilidade das anotações com a autoria de Joaquim José da Silva Xavier. 

A descoberta atribui novo alcance histórico ao volume. Com a confirmação da autoria das anotações, o exemplar deixa de ser apenas um objeto associado ao universo político do final do século XVIII e passa a constituir evidência material direta da relação de Joaquim José da Silva Xavier com a leitura, a circulação e a apropriação de ideias políticas modernas. 

Para a presidenta do Ibram, Fernanda Castro, a confirmação representa “escutar a voz de Tiradentes mais uma vez”. Segundo ela, o resultado evidencia também o papel dos museus como instituições de pesquisa, produção de conhecimento e inovação, capazes de articular ciência e memória na construção de novas interpretações sobre a história do Brasil.  

O diretor do Museu da Inconfidência, Alex Calheiros, reforça que o livro deixa de ser um indício e passa a ser uma prova material.  O laudo eleva enormemente o valor histórico e afetivo do bem, oferecendo novas camadas de entendimento sobre a figura de Tiradentes. 

O 21 de Abril e o Legado de Tiradentes 

A confirmação da autoria ocorre em um momento simbólico, aproximando-se do dia 21 de abril, feriado nacional que recorda o sacrifício de Tiradentes. Joaquim José da Silva Xavier foi o principal rosto da Inconfidência Mineira, movimento de rebelião do século XVIII que pretendia libertar o Brasil do domínio português. 

Dentre os conjurados, Tiradentes destacou-se por ser um dos mais ativo na propagação dos ideais de liberdade, sendo o único a receber a pena de morte após os Autos da Devassa: o processo judicial da Coroa Portuguesa que incriminou os inconfidentes e no qual este livro foi citado diversas vezes como prova. Sua execução e o subsequente esquartejamento o transformaram no maior símbolo da luta pela independência e da identidade republicana brasileira. 

Publicado em Paris, em 1778, em língua francesa e dedicado a Benjamin Franklin, o Recueil reúne documentos constitucionais fundamentais dos Estados Unidos da América, entre eles a Declaração de Independência, a primeira redação dos Artigos de Confederação e constituições de seis dos treze primeiros estados norte-americanos. Embora a folha de rosto indique a Filadélfia como local de publicação, a obra foi impressa em Paris, com apoio clandestino do governo francês, no contexto da Guerra de Independência dos Estados Unidos. 

Foi nesse ambiente de circulação atlântica de ideias que o exemplar chegou à América portuguesa. Inspirados pelo êxito da Revolução Americana, os inconfidentes encontraram nesses textos referências para imaginar novos arranjos políticos para o Brasil. O volume posteriormente conhecido como “Livro de Tiradentes” foi levado a Minas Gerais, em 1788, por ex-alunos brasileiros da Universidade de Coimbra, José Álvares Maciel e José Pereira Ribeiro. Pouco antes de sua prisão, em 10 de maio de 1789, no Rio de Janeiro, Tiradentes teria entregue o livro a Francisco Xavier Machado, porta-estandarte dos Dragões de Minas, com a missão de levá-lo de volta à capitania. Após a prisão, a obra foi apreendida e tornou-se peça central de investigação paralela à devassa instaurada pelas autoridades portuguesas. 

Depois de permanecer por 124 anos na Biblioteca Pública de Santa Catarina, em Florianópolis, o volume retornou a Ouro Preto em 21 de abril de 1984. A restituição, articulada pelo então governador de Minas Gerais Tancredo Neves junto ao governo de Santa Catarina, representou um gesto de reparação histórica e de reafirmação do valor simbólico do patrimônio cultural brasileiro. Desde então, o exemplar integra o acervo do Arquivo Histórico do Museu da Inconfidência. 

Do ponto de vista historiográfico, o resultado da perícia amplia a compreensão sobre a atuação de Tiradentes no movimento. Os “Autos de Devassa” já indicavam que ele portava o livro, o mostrava a outras pessoas e solicitava a tradução de trechos específicos. A confirmação de que também são suas as anotações manuscritas presentes no volume acrescenta uma evidência decisiva: Tiradentes não apenas teve contato com essas ideias, mas interveio diretamente sobre o texto como leitor ativo. 

A descoberta contribui, assim, para qualificar a compreensão de sua participação na Inconfidência Mineira, afastando interpretações simplificadoras que o reduziram exclusivamente à condição de homem de ação ou mártir político. O documento passa a indicar, com maior segurança, sua relação concreta com livros, linguagens políticas e debates de alcance internacional em circulação no mundo atlântico de fins do século XVIII. Em lugar de reiterar velhas concepções sobre sua figura histórica, a nova evidência a restitui em maior complexidade, em conexão com debates políticos de alcance internacional. 

Do ponto de vista patrimonial e museológico, o “Livro de Tiradentes” passa a ocupar posição ainda mais singular no acervo do Museu da Inconfidência. Além de obra rara, o exemplar se afirma agora como documento capaz de aproximar o público, de maneira concreta, da experiência histórica da Inconfidência Mineira, ampliando seu potencial de pesquisa, preservação, exposição e difusão qualificada do patrimônio cultural brasileiro. 

Para o Museu da Inconfidência, a perícia representa também um marco institucional. O resultado reafirma a importância da investigação técnica e da preservação qualificada dos acervos históricos, além de fortalecer o compromisso do Museu com a produção de conhecimento, com a revisão crítica de narrativas consolidadas e com a ampliação do acesso público a interpretações historicamente consistentes sobre personagens e processos centrais da história do Brasil. 

O Museu dará continuidade às ações de pesquisa, difusão e comunicação relacionadas ao exemplar, de modo a compartilhar com o público e com a comunidade acadêmica os desdobramentos da descoberta e sua importância para a compreensão renovada da Inconfidência Mineira. 

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