Presidente da CPMI é criticado por conduta considerada grave
Não há dúvida sobre a vontade da maioria da CPMI, pois a questão é matemática: sete não derrotam catorze. Alcolumbre tem o dever de anular o golpe
Carlos Viana tem cara de bom moço: "Sepulcro caiado" (Foto: Divulgação)
Prints da imagem da votação da CPI juntados na representação protocolada ao presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, não deixam dúvida de que ocorreu nesta quinta-feira um golpe no parlamento brasileiro. Os prints mostram que a maioria presente rejeitava os requerimentos pautados em bloco. Mas foi a minoria que venceu.
Como assim? É que o presidente da CPMI, contrariando a praxe, decidiu contar os que eram maioria e fez uma soma que não corresponde aos fatos. Isso é mentira, é roubo, é golpe.
E a constatação é óbvia, a começar pela forma como a votação se deu. Votação simbólica é uma mera formalidade, em qualquer parlamento do mundo. Quem cobre o Legilativo sabe disso. Quem é parlamentar, mais ainda.
Pergunte a Chat GPT em que circunstância ocorre a votação simbólica no parlamento. E a primeira resposta será: “Quando há consenso ou maioria clara”.
A maioria clara já tinha se manifestado, em votação nominal, no escrutínio anterior, quando dezoito parlamentares decidiram rejeitar em bloco todos os requerimentos, já que até o garçom que serve o cafezinho não tem dúvida de que esta CPMI foi criada e está sendo usada como palanque eleitoral, em ano decisivo para o futuro da democracia no Brasil.
Os golpistas não tinham votos para aprovar em bloco. Tanto que apenas sete permaneceram como se encontravam, na hora da votação. Sete não derrotam catorze - na verdade, como mostrou a votação anterior, dezoito queriam interromper a manobra perversa, com a votação em bloco. E os golpistas sabiam que seriam derrotados.
Mas, aí, se revela o que, no linguajar popular, poderia ser definido como chefe de gangue, o presidente da CPMI, Carlos Viana, que que tem cara de bom moço, como em geral os evangélicos têm. E, na sessão, o crente agiu com desonestidade. Contou: “Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete”. Seria correto se ele estivesse contando quem estava sentado. Mas não. Ele contava os que estavam em pé, contrários à aprovação dos requerimentos.
“Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete”, disse, como faria um ladrão. “A pauta está aprovada”. Os que venceram a votação se indignaram, e foram para cima do que se apresentava como malfeitor. E quem na vida comum não reagiria assim ao contatar que a carteira lhe está sendo roubada? Ou quando um estuprador é pego violentando uma pessoa?
A sorte dele foi que os políticos se contiveram ou foram contidos, porque, em situações como esta, poderia ter tomado um soco na cara. Porque o que ele fez pode ser interpretado como roubo. Depois, ele admitiu que errou na conta, mas manteve o resultado.
Se o cliente da Lagoinha conhece a Bíblia, sabe que Deus condena, fortemente, a fraude, fala que é abominação errar no peso dolosamente, ter duas fitas para medir. Se eu acreditasse que existe inferno, quem age desonestamente faria companhia a Satanás e arderia, eternamente.
Como não acredito que exista inferno, deve pagar pelo que fez. Por isso, Alcolumbre deve anular a votação e mostrar que a Constituição, que consagra o poder popular, expresso pelo voto de parlamentares, ainda vigora no Brasil.
Joaquim de Carvalho
Colunista do 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa). E-mail: [email protected]
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