A forma Bolsonaro de fazer política

A política é o jogo do assalto do poder como jogo, em que vale vale tudo, em que quem ganha leva tudo, em que se governa só para os seus, em que se erige os adversários como inimigos a ser diabolizados e destruídos

Emir Sader
Publicada em 03 de fevereiro de 2021 às 16:40
A forma Bolsonaro de fazer política

A vitória de Arthur Lira para presidir a Câmara não foi apenas uma vitória política de Bolsonaro, mas também a consagração de uma forma sua de fazer política. Qual é essa forma e de que forma se reproduz?

É o estilo do Trump, caricaturizado por Bolsonaro. Primeiro, se impor como candidato, mesmo que no começo tenham ainda poucos adeptos, como um outsider inicialmente, contando somente com os mais próximos, os mais identificados com os valores que eles pregam.

Insistir, mostrar tenacidade, como se representassem uma missão que tem que ser realizada. Atuar mesmo se, no começo, estivessem agindo contra a corrente, contra a maioria ainda. Convencer as pessoas aos poucos, contra a vacilação dos outros.

Fazer da política não a arte da unificação e da integração, da construção da hegemonia de ideias e valores, mas a de apropriar-se do poder e usá-lo. Se a arte da hegemonia, no sentido gramsciano, é a da reconstrução da unidade da sociedade em torno de valores, a forma de encarar a política no estilo Bolsonaro é radicalmente oposta.

A política é o jogo do assalto do poder como jogo, em que vale vale tudo, em que quem ganha leva tudo, em que se governa só para os seus, em que se erige os adversários como inimigos a ser diabolizados e destruídos. Em que o exercício do poder não tem limites, também vale tudo.

Bolsonaro se esquivou de debates, se valeu da mamadeira de piroca e outros instrumentos afins, porque ele representaria valores novos,  nova forma de fazer política, que enterraria um passado que precisava ser destruído. Valia tudo então, ele fazia passar essa ideia.

Lira se impôs a partir dos seus adeptos. Mostrava decisão, audácia, se valia de todos os instrumentos, fake news  e robôs incluídos, na performance mais parecida com a do Bolsonaro.  Não era o favorito, mas circulou muito pelo pais, falou com muitos, se valeu dos bilhões de que o governo dispunha e dos cargos como moeda de troca-troca.

Assim que ganhou, fez o discurso protolocar, como se fosse dirigir a Câmara para todos, bla, bla, bla. Mas em seguida tirou do punho da camisa o primeiro decreto, que fala a verdade sobre o sentido do seu mandato. Em primeiro lugar, se reivindica o direito de apagar tudo o que tinha sido decidido anteriormente, para afirmar que quem ganha, leva tudo, não tem que compartilhar com os adversários, que passam a ser tratados como inimigos, a pão e água. Para os amigos tudo, para os inimigos, nada.

Mais do que isso, assim como o Bolsonaro, que não governa para todos, que ao invés de unir, aprofunda as divisões na sociedade, composta de aliados e inimigos, ele também deixa claro que vai dirigir a Câmara para os seus, excluindo os opositores de qualquer participação na direção da Casa.

Simbolicamente, Lira dissolveu a oposição, magicamente, como se não existissem ou deixassem de existir. E’ o que buscaria, se tivesse força, também, o Bolsonaro com seus opositores. Aprofundar as divisões na sociedade, governando para os seus, atacando, criminalizando e marginalizando os adversários.

É o que projeta Lira para a Câmara: alijar os perdedores da Mesa, governar com os seus e para os seus. Consagra, na campanha vitoriosa e no que planeja para seu mandato, um estilo específico de direção. O de impor os interesses dos que ganharam a eleição contra os outros, aprofundando as divisões da Câmara, no estilo Bolsonaro.

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