As 'capivaras' e as eleições 2026
Em Rondônia, toda cautela é necessária com as “capivaras” ocultas dos candidatos de plantão
O voto é uma das formas de exercer a cidadania. Não se trata apenas de comparecer às urnas, mas de assumir responsabilidade sobre os rumos do país, do estado e do município. Em uma República fundada no princípio de que todo poder emana do povo, é no processo eleitoral que essa afirmação se concretiza. Assim, cada eleição permite avaliar trajetórias, corrigir caminhos e escolher prioridades.
Em 2026, o Brasil realizará eleições gerais em 4 de outubro, com eventual segundo turno 21 dias depois para os cargos do Executivo. Estarão em disputa a Presidência e a Vice-Presidência da República, os governos de 26 estados e do Distrito Federal, 54 das 81 cadeiras do Senado Federal, as 513 vagas da Câmara dos Deputados e 1.035 cadeiras nas assembleias legislativas.
O eleitorado brasileiro ultrapassa 155 milhões de pessoas. Em Rondônia, mais de 1,2 milhão de eleitoras e eleitores decidirão quem ocupará o governo do Estado, duas vagas no Senado, oito cadeiras na Câmara Federal e 24 na Assembleia Legislativa.
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram um estado onde a participação é equilibrada entre homens e mulheres e há presença significativa de eleitores nas faixas etárias acima de 45 anos, sem prejuízo da participação jovem. Esse conjunto plural reforça a dimensão coletiva do voto pela qual cada cidadão tem igual peso na definição dos resultados que influenciam diretamente a gestão de recursos, a formulação de leis e a execução de políticas públicas.
Ao longo de mais de quatro décadas de exercício da medicina e quase 30 anos dedicados ao sistema de conselhos de medicina, aprendi que decisões responsáveis exigem análise, coerência e compromisso. Na vida institucional, não há espaço para improviso. Isso também vale para a política, o que exige de cada um de nós, eleitores, extrema cautela e racionalidade no momento de escolher um candidato. Para tanto, há critérios que devem ser observados, dentre os quais compartilho alguns, a seguir.
O primeiro é a coerência entre discurso e trajetória. O que o candidato defende precisa estar refletido em sua história pessoal e profissional. Deve existir alinhamento entre o discurso nos palanques e a trajetória de vida, a qual necessita confirmar o que é dito.
Na sequência, o político tem que demonstrar integridade ética. Respeito às leis, às instituições e à coisa pública não é atributo acessório; é fundamento. O eleitor também não deve se iludir com promessas. Projetos inviáveis, ainda que bem apresentados e desejados, não resistem ao teste da prática.
Como bem se sabe, prometer é fácil, mas legislar e governar dependem da exequibilidade das propostas, o que só é possível com conhecimento de limitações orçamentárias, de competências do cargo e da realidade administrativa. Lembrem-se: propostas inviáveis são apenas palavras ao vento.
O quarto critério que destaco é o compromisso com a coletividade. O eleitor deve ter consciência de que sua escolha não pode refletir seus interesses particulares ou do candidato a quem apoia. A prioridade é o bem comum. Evidentemente, uma pessoa apoia quem professa valores com os quais se identifica. Não há nada de errado nisso, desde que não se ignorem preocupações universais, que dizem respeito a todas as pessoas, e não só a um pequeno grupo.
Um outro aspecto que considero essencial antes de uma decisão à beira das urnas é observar os compromissos do partido ao qual o candidato está filiado, conhecer seus correligionários e apoiadores, em especial quem são os financiadores da campanha. Pessoas (mesmo parentes) e empresas que investem numa candidatura têm interesses nem sempre convergentes com os da coletividade e podem ter certeza de que um dia a fatura do apoio durante o pleito chega no gabinete.
Para proteger seu voto de aventureiros e falastrões, acompanhe debates eleitorais, fique atento ao noticiário e cheque fatos em fontes confiáveis, como sites de órgãos do Legislativo, Justiça Eleitoral e de organizações que fazem, gratuitamente, o serviço de verificação de dados e informações. Com isso, blinde-se de fakenews e narrativas infundadas que, sem esse cuidado, causam prejuízos. Em Rondônia, toda cautela é necessária com as “capivaras” ocultas dos candidatos de plantão.
O estado enfrenta desafios estruturais em diferentes áreas e precisa de um time de líderes coeso e comprometido para manter a agenda de desenvolvimento econômico em rota e superar seus problemas sociais. Por exemplo, a área da saúde abriga um dos quadros mais complexos, com necessidade de planejamento, melhor distribuição de recursos e valorização dos profissionais. O mesmo se pode dizer de educação e segurança pública.
Portanto, o voto não é gesto simbólico, mas instrumento real de direcionamento das políticas públicas o que, na eleição de 2026, pode significar renovação ou continuidade, ambas possibilidades legítimas dentro da democracia. O que não é correto é a indiferença quanto a esse processo, o que enfraquece a qualidade da representação e amplia as chances de distorções que, depois, recaem sobre todos.
Ao longo da vida, como médico e bioeticista, aprendi que ética é prática diária, não discurso ocasional. Por isso, independentemente do resultado das urnas, continuarei a defender a legalidade, a boa gestão e as políticas públicas que assegurem, sobretudo, atendimento de saúde digno e de qualidade para todos. Apoiarei o que estiver alinhado com o interesse de todos e farei críticas construtivas ao que se afastar desse propósito.
O voto é um instrumento poderoso, que não resolve todos os problemas, mas define quem terá a responsabilidade de enfrentá-los. Exercer esse direito com sabedoria, consciência e compromisso com o interesse da sociedade é um dever cívico, assim como fiscalizar a atuação dos eleitos. É dessa maneira que ajudamos na construção de uma sociedade justa que avance no caminho do desenvolvimento equilibrado, da redução das desigualdades e da conquista da prosperidade.
José Hiran da Silva Gallo* é Presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM)
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