Avanços no câncer de pulmão marcam a ASCO 2026
Encontro científico realizado nos Estados Unidos colocou em evidência novas terapias, desenvolvidas dentro do conceito de medicina de precisão, para esse tipo de tumor que é altamente letal
Em 2023m, mais de 30 mil brasileiros morreram pela doença, a maioria, homens.
O Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, em inglês) abriu espaço em suas sessões plenárias deste domingo (31) para dois estudos que reforçam o papel da medicina de precisão para o tratamento do câncer de pulmão, o mais letal do Brasil, que só fica atrás dos cânceres de mama (mulheres) e próstata (homens). O encontro mais importante de Oncologia do mundo reúne até esta terça (2) cerca de 45 mil profissionais de saúde e pesquisadores em Chicago, nos Estados Unidos.
Neste domingo, foi apresentado o estudo fase 3 HARMONi-6, que comparou o uso do anticorpo biespecífico ivonescimabe associado à quimioterapia ao do anticorpo monoclonal tislelizumabe mais quimioterapia no tratamento câncer de pulmão de não pequenas células escamosas. Publicado na revista científica The Lancet, a pesquisa revelou que a combinação de ivonescimab com quimioterapia reduziu em 40% o risco de progressão ou morte. A sobrevida livre de progressão foi de 11,1 meses com ivonescimab combinado à quimioterapia em comparação a 6,9 meses com tislelizumabe associado à quimioterapia.
O estudo fase 3 LIBRETTO-432, que foi publicado ontem (30) na revista científica New England Journal of Medicine, demonstrou um benefício significativo do selpercatinibe como terapia adjuvante para pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células RET-positivo em estágios iniciais. Selpercatinibe reduziu em 83% o risco de recorrência, progressão ou morte nos pacientes com doença estágio II-IIIA. Dos indivíduos tratados com esse fármaco, 92% tiveram uma sobrevida livre de eventos em dois anos. No grupo tratado com placebo, essa proporção foi de 61%.
“O estudo destaca o papel da medicina de precisão também em cenários curativos do câncer de pulmão e a importância da realização de testes moleculares desde o diagnóstico inicial da doença”, afirma a médica especializada em câncer de pulmão Samira Mascarenhas, da Oncologia D’Or.
Câncer de pulmão
O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que, em 2026, 35.380 brasileiros deverão ser diagnosticados com câncer de traqueia, brônquio e pulmão. Os fumantes devem representar 75% dos casos registrados.
Os sintomas mais comuns são tosse, falta de ar, dor torácica, perda de peso, cansaço e presença de sangue no escarro. Como eles não se manifestam no início da doença, cerca de 70% das pessoas são diagnosticadas em estágio avançado, dificultando o tratamento. Em 2023 ocorreram 31.237 óbitos pela doença, dos quais 55% em homens.
Estudo HARMONi-6
Esse estudo foi um dos mais aguardados do congresso da Asco. Ele avaliou como uma única molécula pode inibir tanto a Proteína de Morte Celular Programada 1 (PD-1) como o Fator de Crescimento Endotelial Vascular (VEGF). A primeira atua como uma espécie de freio do sistema imunológico e o segundo fornece nutrientes para as células cancerígenas. A abordagem de inibição dupla em um único fármaco é considerada um marco para pacientes com tumores escamosos, porque os medicamentos anti-VEGF apresentam alto risco de hemorragia.
O HARMONi-6 envolveu 532 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células escamosas em estágios 3 a 4, que foram acompanhados por 21,4 meses. Todos passaram por sessões de quimioterapia, mas metade recebeu ivonescimabe e a outra metade, tislelizumabe. O primeiro grupo teve uma sobrevida global de 27,9 meses, ante 23,7 meses dos pacientes do segundo grupo.
O benefício ocorreu independentemente da expressão de PD-L1, inclusive em pacientes PD-L1 negativos. A taxa de resposta também foi maior com ivonescimab (76% versus 67%). Os eventos adversos foram considerados manejáveis, com baixa taxa de sangramento grave, um ponto importante nesse subtipo tumoral.
Estudo LIBRETTO-432
Esse trabalho representa um marco na tentativa de levar terapias-alvo altamente seletivas para cenários curativos, reduzindo risco de recorrência após cirurgia. O estudo fase 3 LIBRETTO-432, analisou o uso adjuvante do selpercatinibe em pacientes com câncer de pulmão inicial com fusão RET - uma alteração genética na qual parte do gene RET se funde com outro gene, criando uma proteína defeituosa.
O estudo avaliou 151 pacientes com doença em estágio inicial previamente tratados com intenção curativa. Os pacientes receberam selpercatinibe ou placebo por até três anos. Os resultados mostraram redução de 83% no risco de recorrência, progressão ou morte nos pacientes tratados com selpercatinibe.
Na análise de toda a população do estudo (IB-IIIA), a sobrevida livre de eventos em dois anos foi de 94% com selpercatinibe versus 70% com placebo. O perfil de segurança foi considerado manejável e consistente com estudos prévios da droga em doença avançada, com elevação de enzimas hepáticas como principal evento adverso relevante.

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