FUTEBOL: OS NEGROS NÃO AMARELARAM
Estamos em vésperas de final de Copa do Mundo, o ápice da festa, mas o que frequenta o noticiário é aquele fantasma de sempre: o racismo
Dizem que o futebol é a coisa mais importante entre as coisas menos importantes da vida. O problema é quando o que há de mais mesquinho na vida resolve invadir as quatro linhas. Estamos em vésperas de final de Copa do Mundo, o ápice da festa, mas o que frequenta o noticiário é aquele fantasma de sempre: o racismo.
Do lado de lá do Prata, torcedores argentinos insistem no repertório medieval de chamar negros de “macaquitos”. Do lado de lá do Atlântico, na Espanha, a coisa ficou tão feia que precisaram inventar uma informal “Lei Vini Junior” para conter a barbárie das arquibancadas. Houve até atleta expulso nesta Copa por injúria racial, fundado na Lei Vini. Se o preconceito fosse exclusividade ibérica ou portenha, o problema seria simples. Bastaria passar a caneta, punir as federações e isolar os intolerantes. Mas o vírus, como se sabe, não precisa de passaporte.
Por aqui, embora a Constituição jure de pés juntos que o racismo é crime inafiançável, a realidade costuma driblar a lei. Não faz muito tempo, Danilo, então jogador do Palmeiras, resolveu agraciar o adversário Manoel com o epíteto de “macaco do caralho”. Não satisfeito, repetiu a dose e coroou a infâmia com uma cusparada.
O caso foi parar no Superior Tribunal de Justiça Desportiva, que operou um milagre da burocracia moral: deu onze jogos de suspensão ao agressor. Seis pela cusparada, cinco pelo racismo. Pelos critérios da nossa justiça da bola, o cuspe foi classificado como “conduta gravíssima”; o racismo, apenas como “falta grave”. Conclusão lógica: no Brasil, a saliva vale mais que a dignidade humana.
O pecado original vem de berço. O futebol nasceu na Inglaterra, herança de brancos e fidalgos, e desembarcou por aqui colonizado. Nossos clubes tradicionais carregam as certidões de nascimento de seus imigrantes: italianos no Palmeiras e Cruzeiro, portugueses no Vasco e na Portuguesa, alemães no Grêmio. Consta que, nos primórdios do tricolor gaúcho, o estatuto vetava sumariamente os negros. Os pioneiros queriam uma pureza ariana digna de um condomínio fechado, anos antes de um certo cabo austríaco transformar a ideia em tragédia mundial.
As rachaduras nessa parede de preconceito demoraram a aparecer. O primeiro a quebrar a vidraça foi Leônidas da Silva. O Diamante Negro era um gênio, mas gênio com a cor errada. Quando o time perdia, a culpa era dele; a punição era o banco e, consequentemente, a perda do “bicho” — o prêmio em dinheiro. O azar dos racistas da época é que, sem Leônidas, o time perdia mais ainda. O preconceito tinha que se curvar à necessidade do gol.
Mas a revanche do establishment veio em 1950. A tragédia do Maracanazo contra o Uruguai precisava de bodes expiatórios. Encontraram três: Bigode, Juvenal e, principalmente, o goleiro Barbosa. Barbosa foi condenado à “prisão perpétua” por um crime que não cometeu: o de ser um homem negro que tomou um gol. A maldição do goleiro negro só foi exorcizada décadas depois por Dida, que ganhou tudo o que havia para ganhar, provando que as mãos que defendem a pátria não dependem de melanina.
Em 1958, na Suécia, a sombra de 50 ainda assombrava a comissão técnica. Havia a tese científica — encampada pelo psicólogo da delegação, João Carvalhaes — de que os negros “amarelariam” na hora do aperto. Pelé e Garrincha começaram no banco por causa de testes psicotécnicos que hoje não serviriam para balizar um exame de motorista. O Brasil estreou com um time majoritariamente branco. Só o elegante Didi destoava.
No terceiro jogo, contra a União Soviética, veio o ultimato: ou colocavam os "instáveis" ou voltaríamos para casa. Entraram Pelé, Garrincha e Vavá. O resto é literatura. Dos treze gols brasileiros na Copa, onze foram do trio. Just Fontaine, o artilheiro francês que cravou treze gols naquela edição, resumiu anos depois o desespero de enfrentar o Brasil: “Eles eram infernais. Se você marcava o Pelé, o Garrincha escapava. Se marcava os dois, o Vavá entrava e fazia o gol”. A França perdeu por 5 a 2.
Por ironia, se a França aplicasse a pureza que alguns defendiam, o próprio Fontaine não jogaria: ele era nascido no Marrocos, então colônia francesa. A negrada salvou o que Nelson Rodrigues chamava de “a pátria de chuteiras”.
Ganhamos em 58, 62 e 70. Pelé estava lá. Em 70, Jairzinho virou o Furacão e Carlos Alberto Torres soltou a bomba que fechou o caixão italiano. Em 66 não ganhamos porque cruzamos com outro negro, o moçambicano Eusébio, que jogava por Portugal e nos aplicou uma sova inesquecível. O talento, como se vê, insistia em mudar de continente, mas mantinha a cor.
Depois vieram Romário em 94, Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo em 2002. Se o Brasil é o país do futebol, é porque os negros assinaram a escritura do esporte por aqui.
O racismo estrutural é uma tática retrógrada que ainda tenta jogar na retranca. Se a Fifa quisesse resolver a questão com o rigor de um juiz britânico, criaria regras simples: torcedor racista é banido do estádio; atleta racista é banido do esporte. Cartão vermelho definitivo para a Idade Média.
O Dr. João Carvalhaes, com seus testes e teorias de que Pelé e Garrincha eram psicologicamente incapazes de suportar a pressão, errou feio. Não por falta de ciência, mas por excesso de preconceito. Os negros nunca amarelaram. Eles apenas pintaram o mundo de verde e amarelo.
Que amanhã vença o melhor. O branco Lionel Messi ou o negro Lamine Yamal, sem racismo! Essa será a maior vitória em Campo. !
Daniel Pereira. Professor, advogado e apaixonado pelo futebol, seja ele praticado por branco, negro ou amarelo, desde que com classe, ou ao menos sem racismo.
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Converta-se a Deus, ó pecador!
Há um mover sobrenatural nas esferas celestiais, por mais que você não consiga ver com seus olhos naturais. Isso é maravilhoso!




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