Henrique | Capítulo 2
Dizem que é mais saudável se abster da religiosidade exacerbada
Capítulo 2
Ele estava enganado. Completamente enganado. Envolto nas suas ilusões mais sofríveis. Afinal, nascera para servir a Deus como um literato evangélico. E mais. Nascera para ser um pastor. Porém, os seus complexos o faziam pensar que era impossível ser o que já estava designado pelo Pai Celestial. Sim. Inúmeros conflitos internos e a falsa esperança de viver melhor longe de uma congregação evangélica. “Dizem que é mais saudável se abster da religiosidade exacerbada. Não quero me tornar um homem fanático e sair por aí despejando o ódio e colaborando para que a violência se propague entre os indivíduos.” Costumava olhar o jardim da sua belíssima casa. Admirava-o, mas logo se entregava ao ato de se ver como um desgraçado. Mesmo que não houvesse motivos reais para aceitar a melancolia na sua existência terrena, o entardecer se aproximava e lá estava ele com o olhar triste a o sentimento de não se considerar um ser humano abençoado pelo Criador. “Eu acho que não devo ter tantas esperanças assim. Não. Sabe? As esperanças nos fazem caminhar junto com as fantasias. E eu detesto fantasiar, pois após a fantasia vem a agonia de não enxergar um futuro brilhante e inspirador.”
— Não é possível viver bem longe da presença do Senhor, Henrique — disse Frederico se aproximando do amigo em passos lentos e elegantes. — Você mesmo sabe que não é uma visão de mundo correta para quem já se dedicou a ler as Sagradas Escrituras. Eu entendo o seu desânimo com a realidade dos falsos evangélicos, mas não seja tão bobo ao ponto de tentar abandonar Jesus por causa dos homens que são finitos e corruptíveis. Olhe para a sua vida pelo prisma dos ensinos de Jeová Sabaoth. Será que é sábio ignorar a supremacia dEle por causa dos vis?
Henrique nada disse. No olhar, a latente amargura e a vontade de chorar e sair correndo para o jardim e se esconder e rasgar a sua camisa social por se encontrar desesperado e perdido.
— As minhas convicções foram abaladas quando eu me vi diante de pastores e bispos que riam de pessoas pobres e de estrangeiros. Sabe? São questões que me fazem ficar com raiva e triste também. As palavras que eles usaram para se referir àquelas pessoas feriram a minha alma. O meu coração ficou apertado. Eu senti vontade de agredi-los, mas não perdi a paciência. Não. Eu me controlei. E fiquei só escutando as barbaridades que eram pronunciadas por homens que se declaram irrepreensíveis no vocabulário.
Lia e relia seus romances cristãos com uma nostalgia de quando tinha 11 anos. De quando ia à igreja com sua mãe, dona Anabel. Amava escutá-la contando as histórias de Noé, Rute, Ester, Jó, Jonas, a mulher cananeia…
Muito tempo atrás
Naquela tarde poética de outubro, lá vinha Henrique, aos 20 anos, com sua jardineira jeans, todo sorridente, a boina que comprara em Paris. Ele segurava algumas folhas longas e belas de capim-santo. Os cachorros gostavam muito dele. Quando o viam chegar das suas andanças, os quatro iam correndo, faziam a festa com a presença do jovem que começava a pular e sua docilidade juvenil contagiava o ambiente.
Da sacada, a irmã, Gabrielle, tão nova e bela o observava enquanto esperava a sua música gospel tocar na rádio da cidade.
— Que clima agradável! – afirmou dona Anabel segurando uma xícara de chá, o vestido florido elegante. — Pena que seu pai não está aqui.
— O papai já foi? — perguntou Henrique com uma leve decepção. Parou na frente da mãe. Estava suado. — Mas ele disse que ia ficar com a gente, mãe.
— É. Ele realmente disse que ia ficar com a gente, mas surgiu um imprevisto e ele teve que viajar para o Rio de Janeiro e de lá ele vai ter que…
Hesitou em completar a frase.
— Fala, mãe.
— Viajar para o México.
— Não. Quer dizer que… que ele não vai estar com a gente no aniversário da Gabrielle?
— Não — respondeu dona Anabel. — Mas olhe pelo lado positivo.
— Qual o lado positivo, mãe? — questionou Henrique, chateado e com os olhos marejados.
Ela demorou a responder. Ambos ficaram em um silêncio terrível.
— O lado positivo é que nós nos amamos muito e ir à igreja é uma grande alegria, meu amado filho — respondeu dona Anabel. — Mesmo que às vezes o seu pai aja de uma maneira incoerente, nós devemos orar por ele. Porque a nossa luta não é apenas física. É uma luta espiritual.
— Mãe…
— O quê?
— Às vezes eu acho que a senhora sabe de tantas coisas e não me fala o que realmente está acontecendo para tentar me preservar de um desgosto maior.
— Filho… eu…
— Mãe…
Novamente, um silêncio impactante de ambos.
— Às vezes eu vejo a senhora chorando na sala. Pelos cantos. No jardim também… nas noites frias.
— São coisas de mulher.
— Coisas de mulher, mãe?
— Sim. O mundo feminino é complexo. Mais complexo do que você imagina, meu filho. Vai por mim. Eu sei do que estou falando.
— Lágrimas constantes. Uma tristeza lá no fundo dos seus olhos. Sorrisos que não parecem totalmente sinceros. Na verdade… não são sorrisos verdadeiros.
— São coisas de mulher — prosseguiu a matriarca com um tom de voz educado. — Aliás, Henrique, sua irmã também anda pelos cantos meio triste. Se encostando aqui, ali. O olhar meio perdido. Hoje mesmo, querido, ele pouco ficou à mesa conosco. Estou preocupada!
— Mamãe, ela deve estar apaixonada.
Dona Anabel deu uma leve risada.
— Apaixonada? Por quem?
— Pelo filho do jardineiro. O Pietro.
De repente, o olhar da mãe mudou. Ficou sério.
— Aquele rapaz loiro? O filho do seu José? Não. Não pode ser.
— E por que não pode ser, mamãe? — quis saber Henrique curioso. Nos olhos dele, um brilho que vinha do Espírito Consolador. — Por que não, mamãe?
Ela desviou o olhar. Respondeu sem muita vontade:
— Porque você já sabe a resposta.
— Eu? Como assim?
O jovem Henrique sorriu de nervoso.
— Eu não sei de nada. Sério, mãe. Aconteceu alguma coisa que eu não saiba?
Então, dona Anabel se estressou. Afirmou com rispidez:
— Você quer saber de tudo e não se toca que acaba piorando as coisas!
— Mas…
— Mas nada. Entendeu? Eu não gosto de ter que ficar me explicando como se tivesse a obrigação de fazer você entender tudo o que se passa ao nosso redor, mas no dia a dia é complicado fugir das suas tantas e chatas indagações. Para, Henrique! Você não é mais tão inocente assim. Não se faça de bobo, pois eu odeio quem se finge de inocente e fica jogando verde para colher maduro.
“Jogando verde para colher maduro?” Ele ficou triste. Um dos momentos em que mais ficou sem chão na sua vida. Afinal, fora criado em um lar aparentemente cristão, mas com o tempo foi percebendo que nem tudo eram flores. Nem tudo era perfeito. E embora ele soubesse que o ser humano não era perfeito, Henrique lia as Sagradas Escrituras com um entusiasmo que irritava até alguns pastores e bispos que infelizmente viviam na carne. Então, foi a partir dessas críticas severas de líderes eclesiásticos que começou a perceber o que significava a hipocrisia religiosa na prática.
A mãe, aparentemente, benevolente, evitava cumprimentar as irmãs negras da santa grei. Quando era inevitável fugir desse contato, era nítido o seu desconforto em um olhar que transmitia a repulsa da casa branca pelos escravos que ousavam em lutar pela liberdade.
“Eu sei que ela é racista, mas até agora não consegui comentar a respeito do caso de forma direta. Por medo, eu confesso. Por covardia também. Meu Deus! Tantos livros que falam do assunto. Tantas análises de importantes pensadores que defendem o respeito à população negra e a minha mãe lava as mãos por uns 15 minutos para se limpar desse contato. É triste! Muito triste!”
— A senhora não gosta do Pietro, é?
— Não — respondeu dona Anabel, assumindo uma postura fria e irreconhecível até então pelo filho. — Não gosto, Henrique. Nem pretendo gostar, meu amado filho. Infelizmente a juventude nos cega. Nos faz aprovar aquilo que deve ser reprovado por quem quer o melhor. O topo da hierarquia é conquistado por poucos. E esses poucos são pessoas de origens nobres. Não é qualquer um que pode chegar e se achar no direito de querer ditar as regras de uma família que é valorizada pelo seu notável e indubitável requinte. Nobreza, Henrique. Nobreza, meu amado filho.
O jovem se encontrava perplexo com tais falas. O olhar decepcionado de quem agora via e escutava uma pessoa extremamente odiosa em relação aos mais humildes.
— Nobreza? — questionou Henrique. — Tem certeza?
Ao ser indagada, dona Anabel se indignou e deu uma bofetada no rosto do filho. Gritou:
— Desgraçado! Seu desgraçado!
Ele levou a mão até o rosto dolorido. As lágrimas escorriam.
— Quer saber o porquê da minha revolta? Eu te digo, seu desgraçado. O Pietro é pobre. O pai do Pietro, seu José, é pobre. É muita desgraça que espera a minha filha que é uma princesa e não merece se casar com um qualquer. Filho de jardineiro. O José também é pedreiro. É isso o que você quer para o futuro da sua irmã, Henrique? Uma vida de miséria, é?
— Eles se amam, mãe. Eles se amam e a senhora não tem o poder de interferir na vida de duas pessoas que se amam verdadeiramente.
Então, dona Anabel acertou outra bofetada no filho e pulou em cima dele rasgando a camisa social do jovem e gritando loucamente:
— Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca, seu babaca! Cala boca ou eu vou ter que matar, seu desgraçado! Chega de ficar jogando verde para colher maduro. Quer saber de tudo? Eu odeio gente pobre, eu odeio gente negra, eu odeio ter que fingir que amo ser generosa. Desgraçado! Desgraçado! Olha bem no rosto da sua mãe milionária! Você acha que eu nasci para ser tão altruísta assim? Hein? Acha mesmo? Ou você quer acabar com a minha alegria, seu desgraçado? Quer acabar com a minha alegria, é? Pois saiba que eu não estou nem aí para o altruísmo. Quer saber mais? Eu te digo. Seu pai sai com várias mulheres. Amantes, prostitutas, mas no final ele volta. Ele volta igual um cachorro faminto, Henrique. Mimado. Você é um mimado ingrato, Henrique!
Alberto Ayala Filho é um escritor cristão, natural de Porto Velho. Aos 26 anos, afirma com muita satisfação, a honra que é escrever sobre Deus. Ele ama ler a Bíblia Sagrada e seus artigos são publicados em diversos sites seculares.
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