O bolsonarismo residual continua quixotesco

"Ato na Avenida Paulista serve de parâmetro para refletir sobre a força residual do bolsonarismo", reflete Salvio Kotter

Salvio Kotter
Publicada em 26 de fevereiro de 2024 às 17:01
O bolsonarismo residual continua quixotesco

Ato bolsonarista na Avenida Paulista (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

A Estratégia de Ampliação Virtual

O recente ato político na Avenida Paulista, liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, serve de parâmetro para refletir sobre a força residual do bolsonarismo. Enquanto, sim, milhares de pessoas se reuniram fisicamente no coração financeiro de São Paulo, outra batalha se desenrolava paralelamente: a guerra de narrativas sobre o ato nas redes sociais. Ali, a militância bolsonarista se mobilizou vigorosamente com um objetivo claro – inflar digitalmente a dimensão do ato para criar uma impressão de apoio amplo e inquestionável. Esse esforço de distorção, porém, chocou-se frontalmente com estudos acadêmicos sérios e estimativas independentes, que sugerem números menores: bem menores!

Nas Trincheiras das Redes

O embate digital é tão relevante quanto o físico. Uma vez que a foto desejada por Bolsonaro no ato paulistano servirá de munição em seu confronto com instituições, o campo de batalha nas redes sociais tornou-se essencial. A estratégia adotada, embora tenha funcionado apenas parcialmente, consiste em criar uma imagem de consenso e força irrefutável, sugerindo que uma vasta maioria nacional se alinha ao ex-presidente. Contudo, baseando-se em dados concretos e análises demográficas, sabemos que esse suposto consenso é uma miragem. As redes sociais, por sua natureza, potencializam vozes e imagens, mas não substituem a realidade objetiva – uma verdade que se perde em meio a tweets e postagens fervorosas.

A Discórdia entre Números e Percepções

A discrepância entre o número de participantes reportado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, liderada por um aliado de Bolsonaro, e as estimativas independentes, como o estudo realizado pela USP, reflete uma antiga tendência dos atores políticos de manipular estatísticas em favor de sua narrativa. Mesmo assim, é alarmante que um órgão de segurança encarregado de contagens oficiais participe desse jogo de números, aumentando assim o já preocupante descrédito nas instituições. Este conflito de percepções demonstrou não apenas a polarização no país, mas também a instrumentalização de órgãos públicos para fins políticos, sectários, uma tática que traz repercussões danosas para a democracia.

Ataques Contra a Pesquisa Científica

Ao ser contestado, o bolsonarismo mostrou-se rápido em desacreditar os dados oriundos de pesquisas científicas, direcionando ataques ao grupo de pesquisadores da USP e suas estimativas. A crítica vem na esteira de uma longa série de embates contra instituições e órgãos que oferecem versões contrárias às endossadas pelo ex-presidente e seus seguidores. Com isso, a contestação assume um papel duplo: desqualificar os dados adversos e reforçar a crença no apoio incondicional que Bolsonaro supostamente possuiria. Essa postura denota uma disputa por validação política que demanda e promove um esforço de corroer a confiança nas instituições acadêmicas e, por extensão, na ciência.

Meu cavalo por uma fotografia

A persistência dos organizadores do ato em desmentir as estimativas acadêmicas é uma tentativa evidente de moldar a realidade a fim de enquadrá-la em um roteiro político previamente delineado. Anseiam por uma fotografia que transmita uma mensagem de unidade e superioridade numérica indiscutível, algo capaz de, por um lado, tensionar as instituições e, por outro, mobilizar ainda mais seus apoiadores. A questão, entretanto, não reside na obtenção dessa fotografia, mas sim no significado que se busca imprimir a ela. A tradicional tática de inflacionar o apoio, seja através de alegações de multidões em motociatas ou tentativas de subverter os métodos de contagem, exemplifica a disposição em defender uma narrativa de popularidade acima das evidências.

Impacto nas Instituições e na Sociedade

Apesar do fervor demonstrado nas redes sociais e da pressão para a anistia de golpistas, a realidade das instituições brasileiras mostra que esses esforços são confinados a limites definidos. STF, PGR e PF, além do Congresso, têm se mantido imunes aos megafones digitais e à retórica quixotesca. E, embora o bolsonarismo tenha desfilado mais uma vez sua capacidade de mobilização, fica claro que a sua influência, embora expressiva, resulta de uma luta contra um moinho de vento. Os fatos contradizem Bolsonaro e sua prisão se materializa a olhos vistos. Enquanto isso, o Brasil continua sendo um quadro complexo de ideologias e convicções, no qual a extremidade representada pelo bolsonarismo é no momento não mais que uma das muitas facetas.

Salvio Kotter

Escritor, tradutor e editor da Kotter Editorial, que vem publicando grandes autores de livros de política de cunho progressista, e também livros de filosofia e de literatura.

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