'Toffoli pirou?'

"Há indícios de que ele desconfia da PF"

Fonte: Alex Solnik - Publicada em 15 de janeiro de 2026 às 09:59

'Toffoli pirou?'

Dias Toffoli (Foto: Gustavo Moreno/STF | Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Durante minha internação na UTI, em dezembro, tive um sonho com Alexandre de Moraes. Eu o encontrei sentado a uma mesa de uma padaria-restaurante perto da minha casa. Éramos íntimos. Sentei à sua frente e, antes mesmo de cumprimentá-lo, perguntei, de chofre:

“Toffoli pirou?”

Moraes deu uma risadinha, respondeu alguma coisa, mas eu não entendi.

Dias antes, o colega de Moraes tinha convocado uma acareação tripla - do dono do Master, do presidente do BRB e do diretor do BC - antes de seus interrogatórios.

Foi alvo de críticas contundentes - da imprensa, do BC, da Febraban - e resolveu recuar. Mandou a PF interrogar o trio. Antes do início do interrogatório, para o qual enviou um funcionário de seu gabinete, rebateu a investigadora - que decidiu acarear antes de interrogar, alegando não ter sido comunicada oficialmente do recuo de Toffoli - e exigiu que suas perguntas fossem feitas, por seu representante, antes das dela, que comandava o inquérito.

Ontem, depois de autorizar operação de busca e apreensão nos endereços de Daniel Vorcaro, parentes e aliados, a pedido da PF, protagonizou nova cena de stress ao exigir que os objetos apreendidos - 31 computadores, 30 celulares, 30 armas (além de R$645 mil em dinheiro vivo, 23 veículos e relógios) - fossem lacrados e encaminhados para ele, tirando da PF a prerrogativa de periciar os aparelhos que podem conter novas provas dos crimes do banqueiro.

Atingido por uma tempestade de críticas, tal como na decisão sobre a acareação, novamente recuou, mas não deu o braço a torcer. Encaminhou o material à PGR e não à PF, como é a praxe. Além disso, exigiu que o chefe, Andrei Rodrigues Passos, explicasse o atraso de 24 horas na operação.

Quase ao mesmo tempo, na condição de presidente interino da corte durante as férias do titular Edson Fachin, Alexandre de Moraes mandou investigar os vazamentos do inquérito, sigiloso, que afetaram as reputações - tanto dele, quanto de Toffoli.

Embora sem mencionar os fatos, ficou implícito que se tratava das notícias de que sua mulher tinha um contrato de R$129 milhões com Daniel Vorcaro e de que parentes de Toffoli estavam envolvidos nas falcatruas.

Os vazamentos foram seletivos. No caso de sua mulher, foi noticiado o montante do contrato, mas omitiu-se a informação de que ela só receberia a bolada se evitasse a liquidação formal do Master. Como o banco foi liquidado no dia 18 de novembro de 2025, o contrato já tinha virado pó quando o vazamento foi divulgado pela imprensa. 

No caso de Toffoli, foi vazada a informação de que ele se hospedava no resort de luxo envolvido na trama, no qual seus parentes tinham participação acionária, o que, em si só, não é um crime, mas lançou suspeição acerca de suas decisões.

As duas decisões - a de Toffoli, tirando o material da PF e a de Moraes, mandando investigar vazamentos - são indícios de que os ministros desconfiam que os vazamentos tiveram origem na Polícia Federal, favoreceram o Master e os enfraqueceram perante a opinião pública.

Além de investir contra o BC e a Febraban, tudo indica que o Master também investe contra o STF.

Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

'Toffoli pirou?'

"Há indícios de que ele desconfia da PF"

Alex Solnik
Publicada em 15 de janeiro de 2026 às 09:59
'Toffoli pirou?'

Dias Toffoli (Foto: Gustavo Moreno/STF | Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Durante minha internação na UTI, em dezembro, tive um sonho com Alexandre de Moraes. Eu o encontrei sentado a uma mesa de uma padaria-restaurante perto da minha casa. Éramos íntimos. Sentei à sua frente e, antes mesmo de cumprimentá-lo, perguntei, de chofre:

“Toffoli pirou?”

Moraes deu uma risadinha, respondeu alguma coisa, mas eu não entendi.

Dias antes, o colega de Moraes tinha convocado uma acareação tripla - do dono do Master, do presidente do BRB e do diretor do BC - antes de seus interrogatórios.

Foi alvo de críticas contundentes - da imprensa, do BC, da Febraban - e resolveu recuar. Mandou a PF interrogar o trio. Antes do início do interrogatório, para o qual enviou um funcionário de seu gabinete, rebateu a investigadora - que decidiu acarear antes de interrogar, alegando não ter sido comunicada oficialmente do recuo de Toffoli - e exigiu que suas perguntas fossem feitas, por seu representante, antes das dela, que comandava o inquérito.

Ontem, depois de autorizar operação de busca e apreensão nos endereços de Daniel Vorcaro, parentes e aliados, a pedido da PF, protagonizou nova cena de stress ao exigir que os objetos apreendidos - 31 computadores, 30 celulares, 30 armas (além de R$645 mil em dinheiro vivo, 23 veículos e relógios) - fossem lacrados e encaminhados para ele, tirando da PF a prerrogativa de periciar os aparelhos que podem conter novas provas dos crimes do banqueiro.

Atingido por uma tempestade de críticas, tal como na decisão sobre a acareação, novamente recuou, mas não deu o braço a torcer. Encaminhou o material à PGR e não à PF, como é a praxe. Além disso, exigiu que o chefe, Andrei Rodrigues Passos, explicasse o atraso de 24 horas na operação.

Quase ao mesmo tempo, na condição de presidente interino da corte durante as férias do titular Edson Fachin, Alexandre de Moraes mandou investigar os vazamentos do inquérito, sigiloso, que afetaram as reputações - tanto dele, quanto de Toffoli.

Embora sem mencionar os fatos, ficou implícito que se tratava das notícias de que sua mulher tinha um contrato de R$129 milhões com Daniel Vorcaro e de que parentes de Toffoli estavam envolvidos nas falcatruas.

Os vazamentos foram seletivos. No caso de sua mulher, foi noticiado o montante do contrato, mas omitiu-se a informação de que ela só receberia a bolada se evitasse a liquidação formal do Master. Como o banco foi liquidado no dia 18 de novembro de 2025, o contrato já tinha virado pó quando o vazamento foi divulgado pela imprensa. 

No caso de Toffoli, foi vazada a informação de que ele se hospedava no resort de luxo envolvido na trama, no qual seus parentes tinham participação acionária, o que, em si só, não é um crime, mas lançou suspeição acerca de suas decisões.

As duas decisões - a de Toffoli, tirando o material da PF e a de Moraes, mandando investigar vazamentos - são indícios de que os ministros desconfiam que os vazamentos tiveram origem na Polícia Federal, favoreceram o Master e os enfraqueceram perante a opinião pública.

Além de investir contra o BC e a Febraban, tudo indica que o Master também investe contra o STF.

Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

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