Trabalhamos muito ou produzimos pouco? O que dizem os dados
Produtividade, e não esforço individual, explica por que países ricos trabalham menos e ainda assim geram mais renda por habitante
Manifestação pelo fim da escala de trabalho 6x1 (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
O gráfico “Annual working hours vs. GDP per capita (2023)” mostra a relação entre horas médias trabalhadas por trabalhador ao ano (eixo vertical) e renda per capita ajustada por poder de compra (eixo horizontal, em escala logarítmica). Cada ponto representa um país. A regularidade empírica é clara: países mais ricos tendem a trabalhar menos horas por ano. Alemanha e França, com renda per capita acima de US$ 50 mil, trabalham entre 1,3 mil e 1,5 mil horas anuais. Já países de renda média ou baixa concentram-se acima de 1,8 mil ou 2 mil horas.
O Brasil aparece com cerca de 2 mil horas anuais e renda per capita próxima de US$ 20 mil (PPP). À primeira vista, isso sugere que “o brasileiro trabalha muito”. Mas o ponto crucial é relativo: para o nível de renda que temos, o Brasil não está acima da curva esperada. Chile, México e Argentina exibem padrões semelhantes. O Chile, por exemplo, tem renda próxima e trabalha algo como 1,9 mil–2 mil horas; o México trabalha cerca de 1,6 mil–1,7 mil horas, com renda parecida; a Argentina também gira em torno disso. Não estamos fora da tendência estrutural observada internacionalmente.
O que o gráfico realmente evidencia é outra questão: a correlação negativa entre complexidade produtiva e renda e as horas trabalhadas. Economias sofisticadas conseguem gerar muito valor por hora trabalhada. Por isso, podem sustentar salários altos com jornadas menores. A Alemanha produz mais PIB per capita trabalhando cerca de 600 a 700 horas a menos por ano do que o Brasil. A diferença não está no esforço individual, mas na produtividade sistêmica — tecnologia, capital físico, organização empresarial e estrutura produtiva.
Portanto, afirmar que “o brasileiro trabalha muito e, por isso, é pobre” ou, ao contrário, que “trabalha demais para o que produz” simplifica excessivamente o problema. O trabalhador brasileiro trabalha aproximadamente o que se observa em economias de renda média. O problema central não é a quantidade de horas, mas o valor agregado por hora. Somos uma economia com menor densidade tecnológica, menor intensidade de capital e menor complexidade industrial. Isso comprime a produtividade média e, consequentemente, a renda.
Em síntese, o gráfico não é uma crítica ao esforço do trabalhador brasileiro. Ele é um retrato estrutural: países ricos trabalham menos porque são mais produtivos; não são mais produtivos porque trabalham menos. A variável decisiva é a sofisticação produtiva. Se quisermos reduzir jornadas mantendo ou elevando salários, o caminho não passa por exigir mais horas, mas por transformar a estrutura produtiva — aumentar a complexidade, a tecnologia e o aprendizado cumulativo. É aí que a verdadeira diferença se constrói.
Paulo Gala
Paulo Gala é economista e professor da FGV
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