Amor próprio em primeiro lugar?
Como o entendimento errado de uma fala de Jesus nos faz viver o evangelho errado
Quando lemos em Mateus 22:39 a famosa frase de Jesus: “Ame o próximo como a si mesmo”, costumamos imaginar que Ele está nos ensinando que devemos amar o outro segundo amamos a nós. Ou seja, que temos de crescer em amor próprio para somente então amar o outro de forma verdadeira. Mas, de fato, foi o que Ele disse?
Partamos de dois princípios: o autor da frase e os seus ouvintes. O autor, claro, foi Jesus de Nazaré; Aquele que, segundo a fé cristã, é o próprio Deus em forma de homem. Aquele que rebaixou-se da sua divindade para tornar-se servo. Aquele que se entregou à morte horrenda em uma cruz, a fim de que os seus amigos e seus inimigos fossem salvos. Esse homem colocou a si mesmo em primeiro lugar? Quando estava na cruz, seu pedido foi: Pai, me tira desse tormento, ou, Pai, tem misericórdia deles, pois não sabem o que fazem? Se Jesus, sendo nosso máximo exemplo de vida, não colocou o amor próprio como prioridade, porque deveríamos fazê-lo? Ou nós acreditamos que Jesus pregou algo que não vivia em seu ministério terreno?
Quanto aos ouvintes, o verso 34 deixa explícito que a frase foi uma resposta à pergunta de um fariseu — um estudioso zeloso da Lei de Moisés. Por vezes esses mesmos estudiosos são descritos como hipócritas (Mt 23:27), ou raça de víboras (Mt 12:34). Em suma, eles eram conhecidos por pregar algo que eles sequer praticavam em seu cotidiano, por isso eram chamados de hipócritas, que significa ator. Afinal, os cristãos verdadeiros deveriam receber os mesmos padrões que os fariseus? O cristão verdadeiro pode ser chamado hipócrita? Claro que não. O cristão verdadeiro pode ser chamado raça de víbora? Claro que não. E por qual razão atribuímos esse ensinamento de forma tão literal à nossa vida, se ele foi endereçado àqueles que não eram um exemplo de boa índole e fé?
Então, se partindo do autor ou do ouvinte não existe sentido lógico em atribuirmos o amor próprio como o princípio do amor ao próximo, o que Jesus quis dizer de fato? O teólogo John Piper diz que a ordem do Mestre seria algo como: “Assim como você ama a si mesmo, ame o seu próximo”.
Em outras palavras, Jesus está partindo do pressuposto de que todo o homem tem um amor manchado pelo pecado dentro de si, um amor orgulhoso, um amor que ama primeiro a si mesmo, antes de amar o outro. E se amamos tão fortemente a nós mesmos, então, pelo menos, que usemos da mesma intensidade para amar o próximo. “Assim como você anseia por comida quando está com fome, anseia por alimentar aquele que tem fome ao seu lado”, continua o teólogo.
Esse é o mandamento do Senhor para os fariseus, os hipócritas que não criam em Jesus e em Sua obra. Todavia, sentado à mesa com os seus discípulos, Ele disse: Amem uns aos outros como eu vos amei (João 15:12). Aos fariseus, homens dominados pelas leis humanas, o mandamento foi usar o seu próprio amor como padrão. Entretanto, para os seus seguidores o mandamento foi amar o próximo como Jesus nos amou. Ou seja, um amor que coloca o bem do outro na frente do meu próprio, um amor que prioriza o meu irmão, um amor que sacrifica a si em detrimento do outro.
Os discípulos de Jesus não tinham a opção de amar o próximo como a si mesmo, e hoje continua da mesma maneira. Aquele que hoje é um discípulo de Cristo deve amar o próximo pelo mesmo padrão que Jesus o amou. Assim viveremos o verdadeiro evangelho.
Mário Thauan, nascido em Belém do Pará, Brasil, é um estudante de Teologia, pela faculdade Dunamis, esposo e pai. iniciou sua jornada cristã aos 10 anos de idade, e cresceu ouvindo o evangelho. Aos 18 anos começou a estudar Teologia com cursos básicos, através da sua igreja local, e a servir no ministério de evangelismo. Em 2024 mudou-se para Portugal, onde casou-se, teve sua filha e onde congrega atualmente.
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