IA DIZER (E QUASE DISSE)
Ia dizer e quase disse que o bom de ser nada é o sonho, porque quando a gente não tem nada o sonho é tudo
Ia dizer que é bom ser nada,
por causa do sonho, da forma
como a gente sonha,
Nada alimenta mais o fogo do
sonho que a lenha da miséria,
da necessidade.
Passar fome intensifica a capacidade
de sonhar, não sei se é a tontura
que dá, mas sei que é efeito direto
da privação de alimentos;
Ia dizer e quase disse que o bom
de ser nada é o sonho, porque
quando a gente não tem nada
o sonho é tudo,
Mas deitei um pouco ali na rede
pra pensar e pensei; e lembrei daquele
tempo e que não foi nada bom,
Nem o sonho era bom, porque era
fruto do desespero.
“O escuro acende os vagalumes”,
acho tão bonita essa fala
do poeta, mas pensei na escuridão,
nos vagalumes e seus motivos.
A gente sofre desses automatismos,
não gosta de admitir as derrotas,
então, cria histórias, perverte
os fatos…
A gente tenta se convencer
de que foi bom, de que teve algo
bom e compensou, porque o escuro
de ter vivido isso acende na gente
essa revolta.
Eu ia dizer que foi bom (e quase disse),
mas não vou, dormir e acordar com
fomes e incertezas não é nada bom.
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