Locomotiva 6 da Madeira-Mamoré deixa o pátio ferroviário para ser vista no Memorial Rondon

Responsável pelo transporte da máquina pesando 26 toneladas, a Setur, apoiada por outros órgãos públicos, irá recuperá-la para ser vista daqui em diante pelo público local e turistas

Montezuma Cruz Fotos: Edcarlos Carvalho
Publicada em 04 de julho de 2020 às 13:28
Locomotiva 6 da Madeira-Mamoré deixa o pátio ferroviário para ser vista no Memorial Rondon

A Baldwin 6, pesando 26 toneladas, é colocada sobre a carreta para ser levada a Santo Antonio, para ser atração turística

A locomotiva Baldwin nº 6, que até a manhã de sábado (4) estava estacionada no pátio da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), foi levada para o pátio do Memorial Rondon, em Santo Antônio, a sete quilômetros do velho pátio ferroviário de Porto Velho. Santo Antônio do Rio Madeira, que foi uma das mais antigas cidades amazônicas, hoje é bairro da Capital de Rondônia.

A operação aconteceria na sexta-feira, mas teve que ser adiada devido à chuva. O superintendente estadual de Turismo, Gilvan Pereira Júnior, informou que o projeto de restauração contará com parcerias e a supervisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e Ministério Público.

Responsável pelo transporte da máquina pesando 26 toneladas, a Superintendência Estadual de Turismo (Setur), apoiada por outros órgãos públicos, irá recuperá-la para ser vista daqui em diante pelo público local e por turistas brasileiros e estrangeiros que visitam o Memorial.

Desde o final do segundo governo do coronel Jorge Teixeira de Oliveira, em 1985, a EFMM foi praticamente abandonada.

“Ela deixou de ser prioridade para as áreas da cultura e do turismo. O resgate poderá ocorrer agora”, diz a escritora e historiadora Yêdda Pinheiro Borzacov.

Segundo ela, tanto em Porto Velho quanto em Guajará-Mirim [na fronteira brasileira com a Bolívia], o crescimento urbano avançou e as prefeituras permitiram construções de residências e casas comerciais muito próximas à linha férrea. “Isso contrariou o dispositivo do Regulamento para a Segurança, Tráfegos e Polícia das Estradas de Ferro, comprometendo a estabilidade da via férrea, pois a constante passagem de pedestres sobre os trilhos provoca fuga do lastro e descalçamento das cabeças dos dormentes”, queixou-se a historiadora.

Para Yêdda, a Madeira-Mamoré, se falhou aos desígnios econômicos, não deveria falhar como atração cultural-turística. “Ela representa uma das mais importantes obras de engenharia do início do século XX, e seu acervo demonstra a caracterização não apenas de uma das tentativas de ocupação dessa parte do oeste brasileiro, como também a vinda da moderna tecnologia da época, representada pela energia a vapor”.

Mesmo com experiência de seis anos nessa atividade, o operador de guindaste Rile Cabal do Nascimento sentiu o peso da responsabilidade na manhã deste sábado. Coube-lhe erguer a locomotiva, colocando-a sobre a carreta do caminhão de três eixos, e transportá-la por sete quilômetros até o pátio do Memorial.

Essa locomotiva a carvão foi fabricada Baldwin* (EUA), no início do século passado. A empresa dominou o setor de locomotivas no mundo desde o final dos anos 1800.

Alçar dos trilhos uma máquina desse porte e colocá-la sobre a carreta não foi uma tarefa simples. A operação próxima ao galpão da EFMM durou mais de duas horas e foi executada por operários de uma empreiteira contratada pela Setur.

Filho de barbadianos que ajudaram a construir a ferrovia considerada “a mais isolada do mundo” no início do século passado, o ex-ferroviário Lord Jesus Brown, 73 anos, acompanhou o içamento e a chegada da locomotiva 6 ao seu novo lugar. “Depois dela,vieram a 12, a 15 e a 16; essas máquinas vinham encaixotadas em navio”, ele recordou.

Muito conhecido em Porto Velho, seu Brown, nascido em Abunã, lembrou ainda que seus avós vieram para o Alto Madeira em 1864, e seu pai Griffits Brown foi encarregado de obras, supervisionado por engenheiros da empresa construtora. “Todos eles morreram aqui mesmo e seus restos foram repousar no (extinto) Cemitério da Candelária”, acrescentou.

DATA COINCIDE COM INDEPENDÊNCIA AMERICANA  

A Madeira-Mamoré foi tombada como Patrimônio Cultural Brasileiro em 28 de dezembro de 2006.

Para o historiador Francisco Matias, o dia 4 julho “poderia ser um dia como outro qualquer, não fosse a data da independência dos EUA, o Independence Day”.

Ele lembrou que nesse dia os EUA se libertaram da Inglaterra, marcada pela primeira guerra civil, nos idos dos anos 1750.

Historiador Francisco Matias lembra o 4 de julho

“Em todas as representações dos EUA, mundo afora, ocorre esta comemoração. No ano de 1907, em pleno coração da Amazônia, às margens do rio Madeira, no porto de abarrancamento conhecido como Porto Velho, em terras do município de Humaitá, técnicos e operários norte-americanos do consórcio May & Jeckill, contratado para construir a estrada de ferro Madeira-Mamoré, aguardavam com ansiedade aquele 4 de julho para comemorar de forma bem patriótica sua independência”, descreveu Matias.

“Afinal, eles estavam ali, sob o calor tropical da floresta, a mercê das febres palustres, longe de suas casas, mas em uma das possessões norte-americanas para realizar uma das mais grandiosas obras ferroviárias do mundo, tão americana como se estivesse em solo dos EUA”, ele explicou.

PREGO DE OURO

Matias disse ainda que eram costumes das empreiteiras ferroviárias norte-americana bater simbolicamente um prego de prata no primeiro dormente, e, ao terminar as obras, bater um prego de ouro no último dormente. Assim, a cerimônia de um ou de outro momento era muito prestigiada. Foi da mesma maneira no antigo porto amazonense, local escolhido para ser construída a estação inicial Madeira, da Madeira-Mamoré.

“A partir desta data, disse o historiador, o acampamento da May & Jeckill daria lugar ao povoado denominado Porto Velho do Rio Madeira, ou, Porto Velho de Santo Antônio ou, simplesmente, Porto Velho. Seja como for, o povoado nasceu com as feições norte-americanas, com placas indicativas em inglês, onde se falavam vários idiomas, mas sobressaia-se o inglês como língua oficial”.

Operários da empreiteira a serviço da Setur preparam o içamento de uma das lendárias máquinas a carvão da EFMM

* A Baldwin Locomotive Works foi uma fabricante norte-americana de veículos ferroviários. Maior produtor de locomotivas a vapor do mundo, construiu também locomotivas elétricas e diesel elétricas. Suas operações estavam localizadas na Filadélfia e em Eddystone, ambas na Pensilvânia. A Estrada de Madeira-Mamoré  recebeu e colocou em operação outras máquinas vindas da Filadélfia.

Em 1929 a Baldwin adquiriu a Whitcomb, buscando diversificar a linha de produção. Entre 1931 e 1940 operou como Whitcomb Locomotive Works, uma subsidiária da Baldwin Locomotive Works. Em 1940 assume definitivamente a empresa passando a operar como uma divisão da Baldwin, a Whitcomb Locomotive Company.

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