Lorenzo | Capítulo 1
Segurava um copo de uísque e analisava, de vez em quando, um quadro estilo cubista que estava na parede daquele escritório excêntrico
— Quando eu olho pro jardim, inevitavelmente, eu me lembro de todas as loucuras que eu vivi em Paris ao lado daquelas mulheres — disse Lorenzo, com uma nostalgia tão vívida e o olhar distante. Segurava um copo de uísque e analisava, de vez em quando, um quadro estilo cubista que estava na parede daquele escritório excêntrico. — Ser o garanhão não é uma das melhores opções pro cara que quer ter sossego, mas eu curtia o caos e a paixão. Na verdade, ainda curto, mas preciso me polir diante de tantas críticas religiosas. Ah! Os falsos moralistas e os seus diversos orgasmos às ocultas. Muitos desses falsos moralistas procuram prostitutas e travestis. Eu conheço esses safados. Aí eu é que sou o errado da história? Não, não. Eu sou é verdadeiro e visceral.
O amigo homossexual riu, envolvido por uma energia de mistério. Ele comentou:
— Que pena que você é heterossexual.
— Menos um problema na minha vida! — afirmou Lorenzo, com uma malícia acentuada nas feições e na entonação das palavras. — Já pensou ter que me deitar contigo e ainda me apaixonar por um místico que se apaixona demais e, logo depois, odeia aquele que o faz chorar? Seria uma insanidade.
— Poxa! Assim você me ofende, hein?! Eu odeio, mas eu sei amar também — bradou Pietro e logo se olhou no espelho para conferir se os seus cabelos estavam arrumados e sedosos. — Nunca subestime uma bicha que se apaixona sem reservas. Elas fazem o impossível pra tratar o macho como um rei, mas, quando são traídas, até matam. Com as forças ocultas ou na facada mesmo.
Lorenzo riu. No olhar, uma zombaria hétero.
— É uma ameaça, hein?! Porque, se for, considere-se em uma zona de risco também, Pietro. A qualquer momento você pode aparecer sem vida, numa vala. Hein? Seria muito triste.
O coração de Pietro acelerou. Enquanto isso, Lorenzo se pôs a observar a cidade da imensa janela de vidro que revela as belezas do Rio de Janeiro.
— Não é uma ameaça direta pra você — respondeu o colega homossexual. — É um recado pra todos que quiserem mexer com a bicha aqui. Ela tem uma força que derruba qualquer um que queira acabar com o brilho dela.
— Você é um homem novo, Pietro — comentou Lorenzo, em um tom educado. — O que será que aguarda no futuro? Sabe? Às vezes eu te olho e fico me perguntando se você é gay mesmo.
De repente, o olhar de Pietro mudou.
— É. Às vezes eu te olho de longe e não consigo acreditar totalmente que eu estou diante de um homossexual.
— Por que não?
— Porque dificilmente você me olha com desejo. Sabe? E as nossas conversas, Pietro, por mais que tenham uma conotação tensa, não culminam em sexo. Nem anal. Nem oral.
Silêncio.
— Nem todo hétero gosta do melhor amigo ou dos seus conhecidos héteros.
— É verdade — concordou Lorenzo, e o olhar demonstrando uma genialidade de raciocínio aguçada. — Os padrões são contestados pelos que bradam pela liberdade.
— Evidentemente.
— Mas um homossexual tão afeminado é o papel mais assertivo daquele que sai e é visto beijando uma loira misteriosa e tão bela. Né, Pietro?!
Então, as mãos do falso homossexual ficaram geladas e ele se viu diante de uma grande armadilha existencial.
— Não que eu seja tão homofóbico ao ponto de fantasiar a redenção daquele que naturalmente não tinha como se interessar tanto pelas carícias de uma mulher, já que se considera afeminado e louco por homens musculosos e rústicos. Tava no plano mentir, né, atorzinho de quinta categoria?! Pois é. Às vezes a gente se ilude achando que sabe tudo, mas se esquece que na vida existem outras pessoas mais vividas e mais espertas. Aí vem o tombo e a raiva de compreender a insignificância do bobo da corte.
Silêncio.
— Não foi a minha intenção, senhor.
— Senhor? — se espantou Lorenzo. — Olha! Quanta distinção na oratória. De repente, ele vira um homem que reconhece seu lugar de servo.
— Eu… eu não tô entendendo o que o senhor quer de mim. Desculpa! Eu…
— Você nada — gritou Lorenzo e arremessou o copo de vidro contra a parede. O farsante se esquivou, assustado. — Você nada, seu pobre de merda. Tá achando que tá falando com quem, seu desgraçado? Olha pra mim! Olha pra mim, seu miserável! Eu sou milionário. Eu já viajei pra diversos países. Como é que você achou que eu ia cair nesse seu papo de favelado querendo ser o espertalhão pra cima de moi? Coitado!
— Desculpa! A culpa não é minha.
— Mas poderia ser. Foi por pouco, né, seu bosta?! Né, seu vagabundo?!
— Foi por necessidade, patrão. Necessidade. Necessidade de comer, de vestir meus filhos lá na favela. De ajudar a minha mãe com os remédios. De ter um futuro diferente.
— Agora ser ladrão é uma missão digna, seu bosta? É?
— Desculpa, patrão! Eu confesso tudo. Se quiser saber tudo, eu confesso. Só não chama a polícia. Pelo amor de Deus!
— Eu não vou chamar a polícia, seu vagabundo. Vou fazer pior.
— Não me mata, patrão. Eu confesso tudo. Tudo o que o senhor quiser saber.
— Não precisa se preocupar com isso, lixo. Eu não vou te matar. Vai ser pior no sentido da sua escravidão existencial. Até os últimos anos dessa sua vida desgraçada. Sabe? Você não nasceu. Você foi defecado.
Pietro abaixou os olhos e caiu de joelhos, com as lágrimas já rolando no seu rosto jovem.
— Me mata então. Se for pra ser escravo, me mata.
Lorenzo riu. Cruzou os braços e gritou:
— Levanta, criatura infernal! Levanta da merda desse chão!
Silêncio.
— Levanta, marginal desgraçado! Levanta, que você vive num país que pessoas como você têm dois destinos: ou vai pra cadeia ou pra igreja aceitar Jesus.
— Eu prefiro aceitar Jesus, patrão! — afirmou Pietro, de joelhos, as mãos levantadas, em um ato de submissão espiritual em meio àquela situação desesperadora. — Eu prefiro viver uma vida com Jesus. Pode chamar a polícia.
— Prefere Jesus? — questionou Lorenzo. — É, seu vagabundo? Então… será que Jesus te quer mesmo, sua merda ambulante? Será se tem salvação pra uma desgraça como você?
— Tem. Tem sim. Tem salvação pra mim. Assim como tem salvação pro senhor também. Basta o senhor querer também, assim como eu tô querendo agora.
Lorenzo descruzou seus braços e empurrou Pietro com o pé, fazendo-o cair no chão, aos prantos, totalmente rendido.
— Para de fingimento, canalha! Deixa de ser frouxo e assume que você errou feio. Assume que é melhor. Sabe o porquê? Porque Deus não é um Zé Mané, seu idiota. Tá achando que ele vai te livrar da condenação eterna? É? Só pra você ficar consciente, eu já fui da igreja há muito tempo atrás, sabia? E, quando eu evangelizava, eu conhecia logo de cara os tipos de bandidos que tavam pela área. Você é o mais fuleiro e detestável e previsível. Só que, quando o calo aperta, corre pro salvador. Chora, vai lá na frente, ora, ajoelha, o pessoal abraça, finge que se arrepende e a maioria dos irmão pensa que um pecador foi alcançado pela misericórdia do Senhor. Tudo ilusão! É um disfarce do fuleiro que quer escapar da polícia e ainda se dá ao luxo de querer uma irmãzinha, novinha, cheirosinha, virgem. Cara, tu é um vagabundo!
— Jesus é tudo! — afirmou Pietro.
— Sim, Jesus é tudo — disse Lorenzo. — Mas a gente tá em qual planeta? Planeta Terra? Que legal! E o quê mais? A gente precisa de grana, e você até se fingiu de homossexual pra faturar uns trocados miseráveis. E aí? Você foi descoberto e creio que nem tenha a noção de que o mundo é extremamente capitalista. Ao extremo. Não é só uma questão de comprar comidinha pras filhas feias, todas com as carinhas de faveladas que passam fome e carecem de diversos nutrientes. Coitadinhas! Não é só questão de comprar as roupinhas fuleiras nas lojas de bairro. Pano vagabundo. Moda de gente que sequer pode ousar em sonhar participar de um desfile de moda em Paris ou Milão. Remedinhos pra mamãe pobreza? Risos, Pietro. Ela já tá é vivendo muito. Gente pobre não compensa. Gente pobre merece morrer na lama!
— O que que o senhor quer de mim, patrão? Fala logo!
— Assim é que eu gosto. Rápido. Se mostrando como é realmente. Eu já li você nas entrelinhas. E aqui estamos. Finalmente, conversando sobre… um novo amanhecer. Uma nova possibilidade.

— Diga!
— Resumindo: Pietro, a velha da Clotilde contratou você pra ser meu amigo gay e roubar os dólares do meu bendito cofre. Como ela sabe que eu não confio em nenhum melhor amigo hétero, passou pela cabeça dela a maldita ideia de me enviar um melhor amigo gay. Ai, como ela acha que eu sou um carinha otário que acredita que o amor vence tudo. Risos, desgraçada! Você também, Pietro, uma anta em achar que esse plano sem lógica ia funcionar. No entanto, eu vou te dar uma chance de realmente fugir da pobreza e me ajudar a destruir a reputação daquela velha sem moral. Nós não vamos matá-la, nem roubar nada dela. Nós vamos deixá-la depressiva. Isso! Depressiva e questionando se Deus existe mesmo. Como eu sei que a maioria das pessoas que vão à igreja não estão tão preparadas pra uma terrível batalha espiritual, nem precisa a gente fazer muito. Com pouco sofrimento, ela mesma irá se permitir ser destruída. Se aceitar, 1 milhão de reais na sua conta após a execução do plano. Se não, eu acabo com vocês dois de qualquer jeito. Aceita? Ou vai querer servir a Deus na simplicidade tão deplorável? Hein?
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