Marcos Rocha fica e Confúcio desiste da eleição
SABIAM - Com o prazo de desincompatibilização batendo à porta neste fim de semana, a novela perde o suspense
FICA
Durante meses, tratada como folclore de bastidor, a informação resistiu - e venceu. Este cabeça chata insistiu, repetiu, martelou: o governador Marcos Rocha não sairia do cargo. Não era blefe, não era cortina de fumaça, tampouco estratégia mirabolante para distrair adversários. Era apenas… a realidade.
SABIAM
Com o prazo de desincompatibilização batendo à porta neste fim de semana, a novela perde o suspense. Rocha cravou à coluna: fica. E ponto. A tese da renúncia para disputar o Senado - vendida com convicção quase religiosa por alguns -evapora como previsão errada de analista apressado. Os leitores desta coluna que acompanham um jornalismo independente já sabiam o que agora está se confirmando e o vice-governador continua no mesmo posto e o governador no mesmo para o qual foi eleito para um mandato de quatro anos.
CONTAGEM
Agora, resta aos que torciam pela cadeira vaga um exercício de paciência institucional: o governador seguirá no posto até 4 de janeiro de 2027. Longos meses pela frente para quem já fazia contagem regressiva.
COVENIÊNCIA
É curioso observar o comportamento de parte da plateia. Durante sete anos, uma fração considerável da mídia caminhou em harmonia com o governo, usufruindo das benesses e da boa convivência. A partir de agora, com a permanência sacramentada e interesses contrariados, é razoável supor que o tom mude. Críticas mais ácidas, cobranças mais diretas. Nada de anormal - a política também se move por conveniência editorial.
TRAMPOLIM
Rocha, por sua vez, apenas cumpre o óbvio ululante: foi eleito para governar. Renunciar seria uma escolha pessoal de natureza eleitoral, não uma obrigação institucional. O eleitor não votou em um projeto de trampolim. Quanto a avaliação dos últimos quatro anos da administração estadual fica em tese adiada para mais quatro, caso em 2030, Marcos Rocha volte a disputar um mandato.
RISCO
A decisão também passa longe de ser ingênua. Depois de assistir a uma tentativa precoce e mal calibrada de lhe puxar o tapete - protagonizada por quem deveria estar no mesmo palanque administrativo - o governador fez contas. E política, no fim, é isso: cálculo. Ao deixar o cargo, entregaria a caneta a alguém que já demonstrara disposição para reescrever o roteiro, inclusive desmontando alianças e narrativas construídas ao longo de sete anos. O risco era alto demais. Optou por permanecer. E diante das circunstâncias fez a opção politicamente acertada.
NARRATIVA
No pacote, vieram efeitos colaterais. A ventilada candidatura de Luana Rocha à Câmara Federal perdeu tração. E, como não poderia faltar, floresceu o enredo paralelo: o de que ela seria a verdadeira condutora do governo, a força invisível por trás das decisões do marido. Uma narrativa conveniente para adversários, útil para intrigas, mas carente de substância - ainda que repetida com entusiasmo por quem precisava acreditar nela.
SUPERFICIALIDADE
Houve, claro, análises mais sóbrias, feitas à distância, sem acesso ao subterrâneo do poder. Essas erraram menos por má-fé e mais por falta de elementos. A política, como se sabe, raramente se explica na superfície.
PASSIVO
No fim, o fato concreto prevalece: a coluna acertou ao cravar que Marcos Rocha ficaria. E fica. A partir de agora, entra em cena como cabo eleitoral - peso relevante - nas campanhas de Adailton Fúria ao governo e de Luís Fernando ao Senado. Leva consigo ativos e passivos: a máquina, a visibilidade, mas também o desgaste acumulado de quase sete anos de gestão.
DESAFIO
O desafio será outro: governar sem deixar que a sensação de fim de ciclo antecipe o esvaziamento do poder. Porque, em política, a cadeira só continua sendo sua enquanto os outros acreditam que ainda é. És aí um desafio a ser observado.
ANÚNCIO
Há mais de um mês, o senador Confúcio Moura já havia feito sua escolha - não ao público, mas a este colunista. Não disputaria nada nestas eleições. Um acordo tácito selou o timing: primeiro, organizar a casa, montar as nominatas do MDB, evitar ruídos internos; depois, vir a público, em ambiente controlado, anunciar o desfecho de uma carreira longa. Política também é coreografia. E o anúncio solene seria no podcast Resenha Política. Embora uma informação valiosa para o jornalista, o acordo prevaleceu e esperamos a data marcada para a entrevista.
LITURGIA
O roteiro, porém, escapou do script. No último sábado, em visita a um proprietário de conglomerado de comunicação, a decisão foi verbalizada e, como costuma ocorrer nesses círculos, ganhou asas. Tornou-se pública antes da hora. Não muda o conteúdo, apenas altera a liturgia.
TRAJETÓRIA
Confúcio deixa a política eleitoral sem derrotas que o constranjam. Prefeito, deputado federal em mandatos sucessivos, governador por dois ciclos e, por fim, senador. Uma trajetória que não precisa de retoques retóricos para parecer vitoriosa. É.
AMBIENTE
A desistência, como sempre, não cabe em explicações simplistas. Não é um único fator que retira um político desse porte do tabuleiro. Há questões familiares, especialmente de saúde, que pesam mais do que qualquer cálculo eleitoral. Há também o ambiente político - menos cordial, mais ruidoso, francamente hostil a quem ousa sustentar posições fora da corrente majoritária local.
PREÇO
O apoio ao governo Lula, nesse contexto, cobra seu preço. Em estados onde a polarização deixou de ser retórica para se tornar identidade, nuances são tratadas como desvios. E desvios, como fraqueza. Confúcio, que nunca foi um político de gritos, passou a falar em um ambiente que exige megafone.
TRINCHEIRA
Sua eventual candidatura ao Senado não seria irrelevante. Ao contrário, seria competitiva. Mas talvez fosse, entre as alternativas colocadas, a mais árdua. Não por falta de capital político, e sim pelo terreno: um campo minado por antagonismos ideológicos e por uma beligerância que transforma eleição em trincheira. Vencer estas eleições seria o maior desafio da longeva vida política.
MADURO
No fim, prevalece o cálculo íntimo - aquele que não aparece nas pesquisas nem nos discursos. A soma de fatores, visíveis e invisíveis, conduz à decisão que, por fora, parece abrupta, mas por dentro já estava amadurecida.
ETARISMO
Confúcio sai de cena sem alarde, ainda que o vazamento tenha antecipado o ato final. Sai no tempo que escolheu, não no que lhe imporiam. Em política, isso não é pouco. Há também o fator idade que impede num futuro próximo retomar o projeto eleitoral que se encerra.
ÁURA
Na política rondoniense, poucos personagens conseguem reunir, ao mesmo tempo, a aura de estadista eficiente e a fama quase folclórica de operador implacável como Confúcio Moura. Seus admiradores não economizam elogios: foi, dizem, um senador acima da média, capaz de destravar recursos com uma habilidade que faria corar de inveja boa parte da bancada federal. Municípios agradecem, prefeitos aplaudem e obras concretas ajudam a sustentar a narrativa de que, em Brasília, poucos trabalharam tanto por Rondônia quanto ele.
RELATOS
Mas como toda biografia política que se preze - especialmente no Brasil profundo - há sempre o outro lado da moeda. E, no caso de Confúcio, essa moeda não é exatamente leve. Durante o período em que governou o estado, relatos recorrentes dentro do próprio MDB apontam para um estilo de liderança que beirava o método: divergência não era apenas um detalhe incômodo, mas um problema a ser resolvido com precisão cirúrgica.
IMAGEM
A tal “retaliação silenciosa” virou quase uma instituição informal. Nada de rompantes públicos ou escândalos ruidosos. O que se desenhava era mais sofisticado - e, por isso mesmo, mais eficiente. Companheiros que ousaram atravessar o caminho do então governador descobriram, não raro, que a política pode ser um terreno onde o isolamento é mais devastador que o confronto direto. Cargos evaporam, apoios minguam, projetos empacam. Tudo muito discreto, quase elegante - como convém a quem cultiva a imagem de monge sereno.
TACAPE
E aqui reside o traço mais curioso - para não dizer irônico - da trajetória de Confúcio Moura: a coexistência entre a aparência de serenidade quase tibetana e a capacidade prática de impor derrotas memoráveis a aliados rebeldes. Não se trata de um fenômeno ideológico. Seus “atingidos” não estão restritos a adversários da direita ou da esquerda. Há um certo ecumenismo na lista de desafetos: gente de todos os credos políticos já experimentou, em algum momento, o peso simbólico - e bem concreto - do seu tacape.
CICRATIZES
Isso não apaga seus méritos. Mas também não permite ignorar os custos políticos do seu estilo. Porque, no fim das contas, enquanto obras ficam e mandatos passam, as cicatrizes internas permanecem.
RESSENTIMENTOS
E talvez esse seja o verdadeiro legado ambíguo de Confúcio Moura: um político que soube, como poucos, construir pontes institucionais para o estado - ao mesmo tempo em que, nos bastidores, não hesitou em dinamitar as pontes humanas dentro do próprio partido. Na política, como se sabe, memória é seletiva. Mas, no caso de Confúcio, ela tende a ser também ressentida. É possível que opte em fixar residência longe de Rondônia, mas suas ações vão ser lembradas por muito tempo, sejam as boas, sejam as mais venais.
PODACST
Hoje, no podcast Resenha Política (disponível no You Tube), o pré-candidato a governador pelo União Brasil, Hildon Chaves, revela as tratativas para sua filiação e indicação a pré-candidato pelo UB, além de abordar os temas mais sensíveis da administração estadual. Fala sobre Léo Moraes – desafeto confesso – e aponta os erros do atual governo. Na próxima terça-feira, no mesmo canal, vamos entrevistar o pré-candidato do PSD, Adailton Fúria. Duas entrevistas indicadas para quem quer conhecer o que pensam os candidatos. Na última terça-feira, foi a vez de Marcos Rogério (PL), entrevista que ainda está disponível no canal resenha política no YouTube. Confira.
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