Muito cuidado com as pesquisas

As pesquisas, ainda que falseadas, afetam a decisão do eleitor que geralmente é infenso a votar no candidato sem chances

Fonte: Maurício Rands - Publicada em 24 de abril de 2026 às 17:32

Muito cuidado com as pesquisas

 

Raquel Lyra e João Campos (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil I Edson Holanda / PCR 

As pesquisas eleitorais representam uma fotografia do momento. Podem ter caráter científico se bem usados os métodos de estratificação das amostras e de tratamento estatístico dos dados. Mas isso não as isenta dos riscos do manejo interessado. Os incentivos vão desde axiomas antidemocráticos como os famigerados “em política o feio é perder” ou “os fins justificam os meios”, chegando à pura e simples corrupção. Alguns não se importam com as manipulações, acreditando ingenuamente que a pesquisa relevante é apenas a do eleitor nas urnas. Não percebem que as pesquisas, ainda que falseadas, afetam a decisão do eleitor que geralmente é infenso a votar no candidato sem chances.

Nesses descaminhos, as pesquisas podem falhar voluntária ou involuntariamente. Tome-se o caso das últimas pesquisas para governador em Pernambuco. A do Datafolha apresentou dados em descompasso com o de outros institutos que vinham apontando empate técnico entre a governadora Raquel Lyra e o ex-prefeito João Campos. Especialistas apontam que alguns institutos, mesmo gozando de reputação nacional estabelecida, cometem lapsos metodológicos. Sobretudo quando a eleição ainda está distante. À medida em que a data do pleito se avizinha, vão fazendo os ajustes na metodologia e na amostra. No caso da Datafolha, em alguns estados ela terceiriza as equipes de entrevistadores. E no início concentra as amostras de entrevistados nas capitais e regiões metropolitanas, visto que entrevistas em locais mais remotos têm maiores custos. No caso de Pernambuco, isso pode justificar a diferença para as demais pesquisas que vinham apontando empate entre os principais concorrentes ao governo.  

Outro tópico que justifica a cautela com as pesquisas é o fato de que, até o momento, os eleitores que não escolheram seus candidatos ainda são muito numerosos. Assim como é elevado o percentual dos que admitem mudar de voto. Como lembrou Renato Meirelles em O Globo de 16.4.26, nada menos do que 62% dos entrevistados na última pesquisa Quaest não souberam dizer em quem votariam para presidente quando inicialmente indagados sem o estímulo do disco com as alternativas. Isso significa 96 milhões que não externam espontaneamente uma preferência. Trata-se de dado relevante porque a urna eletrônica funciona como o voto espontâneo. O eleitor, quando chega na cabine, não se depara com um disco com os candidatos. Outro fator que recomenda cautela com os resultados das pesquisas atuais é o fato de que 43% dos entrevistados admitem mudar de voto. Ou seja, 67 milhões que declaram voto em algum candidato, mas admitem mudar. Acrescente-se a frequente discrepância entre os votos espontâneos e os votos na estimulada. Na última Datafolha para Pernambuco, João Campos apresentou uma dianteira de 12%. Mas na espontânea, Raquel Lyra apresentou índices superiores (28 % a 26%). Ainda um outro dado recomenda cautela nas apostas sobre quem será vitorioso em Pernambuco. Historicamente, é raro um governante com mais de 60% de aprovação na pré-campanha perder uma tentativa de reeleição. No Brasil, o índice de aprovação acima de 50% funciona quase como um “porto seguro", embora erros graves ou crises possam afetar essa tendência. Mesmo com índices menores de aprovação, alguns incumbentes ainda assim são competitivos. Foi o caso de Jair Bolsonaro, que em 2022 tornou-se o primeiro presidente a perder a reeleição. Embora seus índices de "ótimo/bom" oscilassem entre 25% e 35%, ele perdeu para Lula por pequena diferença. Isso também sugere que a força de quem está sentado na cadeira continua relevante.

Especialistas em marketing político afirmam que governantes com 60% de aprovação só perdem a reeleição se ocorrer uma unificação total da oposição em torno de um único nome; ou quando o incumbente é tragado em um escândalo ético pessoal intransponível; ou ainda, quando a rejeição individual (o "não voto de jeito nenhum") for maior que 30% mesmo com o governo bem avaliado. Nenhuma dessas exceções aplica-se à candidatura da governadora Raquel Lyra. As pesquisas têm convergido ao apontar um índice de aprovação do seu governo acima de 60%. Isso pode lhe conferir uma vantagem com tendência a se consolidar à medida que as ações do seu governo forem ainda mais conhecidas. No caso do presidente Lula, a maioria das pesquisas aponta empate técnico com Flávio Bolsonaro. Mas a maior polarização no plano nacional é um fator importante. Embora ele tenha aprovação menor que 50% e tenha elevados índices de rejeição, o debate sobre as realizações de seu governo pode contar em uma eleição que segue sendo um clássico imprevisível. 

Maurício Rands

Advogado, professor de Direito Constitucional da Unicap, PhD pela Universidade Oxford

 

Muito cuidado com as pesquisas

As pesquisas, ainda que falseadas, afetam a decisão do eleitor que geralmente é infenso a votar no candidato sem chances

Maurício Rands
Publicada em 24 de abril de 2026 às 17:32
Muito cuidado com as pesquisas

 

Raquel Lyra e João Campos (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil I Edson Holanda / PCR 

As pesquisas eleitorais representam uma fotografia do momento. Podem ter caráter científico se bem usados os métodos de estratificação das amostras e de tratamento estatístico dos dados. Mas isso não as isenta dos riscos do manejo interessado. Os incentivos vão desde axiomas antidemocráticos como os famigerados “em política o feio é perder” ou “os fins justificam os meios”, chegando à pura e simples corrupção. Alguns não se importam com as manipulações, acreditando ingenuamente que a pesquisa relevante é apenas a do eleitor nas urnas. Não percebem que as pesquisas, ainda que falseadas, afetam a decisão do eleitor que geralmente é infenso a votar no candidato sem chances.

Nesses descaminhos, as pesquisas podem falhar voluntária ou involuntariamente. Tome-se o caso das últimas pesquisas para governador em Pernambuco. A do Datafolha apresentou dados em descompasso com o de outros institutos que vinham apontando empate técnico entre a governadora Raquel Lyra e o ex-prefeito João Campos. Especialistas apontam que alguns institutos, mesmo gozando de reputação nacional estabelecida, cometem lapsos metodológicos. Sobretudo quando a eleição ainda está distante. À medida em que a data do pleito se avizinha, vão fazendo os ajustes na metodologia e na amostra. No caso da Datafolha, em alguns estados ela terceiriza as equipes de entrevistadores. E no início concentra as amostras de entrevistados nas capitais e regiões metropolitanas, visto que entrevistas em locais mais remotos têm maiores custos. No caso de Pernambuco, isso pode justificar a diferença para as demais pesquisas que vinham apontando empate entre os principais concorrentes ao governo.  

Outro tópico que justifica a cautela com as pesquisas é o fato de que, até o momento, os eleitores que não escolheram seus candidatos ainda são muito numerosos. Assim como é elevado o percentual dos que admitem mudar de voto. Como lembrou Renato Meirelles em O Globo de 16.4.26, nada menos do que 62% dos entrevistados na última pesquisa Quaest não souberam dizer em quem votariam para presidente quando inicialmente indagados sem o estímulo do disco com as alternativas. Isso significa 96 milhões que não externam espontaneamente uma preferência. Trata-se de dado relevante porque a urna eletrônica funciona como o voto espontâneo. O eleitor, quando chega na cabine, não se depara com um disco com os candidatos. Outro fator que recomenda cautela com os resultados das pesquisas atuais é o fato de que 43% dos entrevistados admitem mudar de voto. Ou seja, 67 milhões que declaram voto em algum candidato, mas admitem mudar. Acrescente-se a frequente discrepância entre os votos espontâneos e os votos na estimulada. Na última Datafolha para Pernambuco, João Campos apresentou uma dianteira de 12%. Mas na espontânea, Raquel Lyra apresentou índices superiores (28 % a 26%). Ainda um outro dado recomenda cautela nas apostas sobre quem será vitorioso em Pernambuco. Historicamente, é raro um governante com mais de 60% de aprovação na pré-campanha perder uma tentativa de reeleição. No Brasil, o índice de aprovação acima de 50% funciona quase como um “porto seguro", embora erros graves ou crises possam afetar essa tendência. Mesmo com índices menores de aprovação, alguns incumbentes ainda assim são competitivos. Foi o caso de Jair Bolsonaro, que em 2022 tornou-se o primeiro presidente a perder a reeleição. Embora seus índices de "ótimo/bom" oscilassem entre 25% e 35%, ele perdeu para Lula por pequena diferença. Isso também sugere que a força de quem está sentado na cadeira continua relevante.

Especialistas em marketing político afirmam que governantes com 60% de aprovação só perdem a reeleição se ocorrer uma unificação total da oposição em torno de um único nome; ou quando o incumbente é tragado em um escândalo ético pessoal intransponível; ou ainda, quando a rejeição individual (o "não voto de jeito nenhum") for maior que 30% mesmo com o governo bem avaliado. Nenhuma dessas exceções aplica-se à candidatura da governadora Raquel Lyra. As pesquisas têm convergido ao apontar um índice de aprovação do seu governo acima de 60%. Isso pode lhe conferir uma vantagem com tendência a se consolidar à medida que as ações do seu governo forem ainda mais conhecidas. No caso do presidente Lula, a maioria das pesquisas aponta empate técnico com Flávio Bolsonaro. Mas a maior polarização no plano nacional é um fator importante. Embora ele tenha aprovação menor que 50% e tenha elevados índices de rejeição, o debate sobre as realizações de seu governo pode contar em uma eleição que segue sendo um clássico imprevisível. 

Maurício Rands

Advogado, professor de Direito Constitucional da Unicap, PhD pela Universidade Oxford

 

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