Antibolsonarismo da direita: etapa inferior do antilulismo

"O fato é que a direita destila ódio inaudito a Bolsonaro nem tanto por ele ser tão fascista, mas porque ele se mostra imperdoavelmente fraco pra derrotar Lula e a esquerda. O antibolsonarismo da direita agora é no fundo uma nova forma do antilulismo, do antipetismo visceral, raiz de tanta destruição", escreve Mario Vitor Santos

Mario Vitor Santos
Publicada em 20 de julho de 2021 às 11:37
Antibolsonarismo da direita: etapa inferior do antilulismo

Nos meios de comunicação de direita começa a ganhar volume uma exasperação. Analistas reclamam que o PT e a esquerda estão “preparando” o campo eleitoral. Segundo eles, o PT prefere enfrentar Bolsonaro, pois vê mais chances de chegar ao Planalto numa disputa contra o genocida do que contra um candidato da chamada terceira via. Não é verdade, o PT, atento, lidera todas as iniciativas pelo impeachment, mas a versão pode colar.

Há, porém, um viés moralista nesse juízo, como se fosse incorreto tentar “escolher” o candidato visto com mais chances de ser derrotado.

Eleições em grande parte são essa arrumação da cédula, por isso as pesquisas contam tanto. Não deixa de ser cômico que os operadores da direita, e a mídia que é seu megafone, estrebuchem febris pelo impeachment de Bolsonaro e pretendam que isso, no caso deles, não seja visto como parte de uma armação, a seu modo, do tabuleiro eleitoral. 

Não é à toa que ultimamente a mídia de direita (não a de extrema-direita, que ainda está com Bolsonaro) abandona toda neutralidade, despreza as contenções linguísticas, as balizas jornalísticas e o distanciamento ético quando trata de Bolsonaro (somente na cobertura política, note bem, não na econômica, onde o “distanciamento” e a objetividade “neutra” disfarçam a excitação simpática pelo programa devastador de Paulo Guedes).

Na política, a mídia de direita (Globo, Folha, Estadão, Veja, IstoÉ, Piauí, Antagonista, etc) liberou seus redatores para adjetivar ilimitadamente. Falam em coro, mais uma vez, como na cobertura da operação Lava-Jato (da qual até hoje não fizeram autocrítica), chamam Bolsonaro de “golpista”, “negacionista”, “mentiroso”, “inconsequente”, “irresponsável”, “insano”, “baixo” e “podre”.

Articulistas pedem abertamente a sua morte. Calam-se diante da censura a suas postagens pelas empresas privadas proprietárias das redes sociais. Mudou a mídia, mudou a direita?

É de se notar a adesão ao linguajar, antes repudiado, dos “blogueiros sujos”. Essa escalada coincide com a aproximação das eleições e a evidência cada vez maior de que Bolsonaro é o obstáculo a tirar do caminho para permitir a afirmação de um candidato, qualquer um, dela própria direita que se autodenomina “centro” ou também “terceira via”, para assim elevar as chances de derrotar Lula, cuja candidatura parece consolidada para todos.

As regras do manual de técnicas (neutralidade, imparcialidade, equidistância) do jornalismo são maleáveis a depender dos interesses em jogo. Vai ser curioso conferir adiante. Se Bolsonaro se consolidar na disputa, se seu nome estiver na urna contra Lula com chances de vitória, até onde se manterá o espasmo antibolsonarista da direita caso ele seja testado num cenário de iminente vitória e de retorno do PT?

Quantos dos que apelam para que Lula não seja candidato, em nome da união contra Bolsonaro, apoiariam um outro candidato do PT num eventual segundo turno contra o presidente?

Chegará ao ponto de se transformar ao apoio em voto em Lula? Quem se ilude? Ou a probabilidade maior será o retorno à “objetividade”, à esfera eleitoral do bolsonarismo apresentada como disfarçada de  “neutralidade antipolarização”?

O antibolsonarismo de ocasião será testado e pode voltar a intuir o “voto útil” no genocida, explícito na aliança Bolsodoria em 2018, no voto bolsonarista do governador tucano gaúcho recém-convertido Eduardo Leite e presente também na viagem de Ciro para Paris ou em sua opção atual pelo suicídio diante do voto polarizado.

Afinal, como foi que Bolsonaro teve mais votos do que Haddad em 2018? Não foi contra a opinião dos “neutros” da política, nem de sua mídia igualmente “neutra”, hoje provisoriamente ex-neutra.

O fato é que a direita destila ódio inaudito a Bolsonaro nem tanto por ele ser tão fascista, mas porque ele se mostra imperdoavelmente fraco para derrotar Lula e a esquerda. O antibolsonarismo da direita agora é no fundo uma nova forma do antilulismo, do antipetismo visceral, raiz de tanta destruição.

Mario Vitor Santos

Mario Vitor Santos é jornalista. É colunista do 247 e apresentador da TV 247. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasilia da Folha.

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