Criador, criatura e a traição ao eleitor bolsonarista

Em Rondônia, Marcos Rocha, à frente do PSD local, terá de fazer campanha contra o candidato do bolsonarismo. Não à toa,  alguém já disse que a maior traição que um político pode cometer é contra os eleitores

Fonte: RUBENS COUTINHO/EDITOR DO TUDORONDONIA - Publicada em 31 de janeiro de 2026 às 17:56

Criador, criatura e a traição ao eleitor bolsonarista

O governador Marcos Rocha percorre hoje um caminho político que contrasta com a trajetória que o levou ao Palácio Rio Madeira.

Em 2018, então um nome totalmente  desconhecido do eleitorado, sua eleição ocorreu no rastro do capital político de Jair Bolsonaro, fenômeno que se repetiu na reeleição de 2022. Até ali, os discursos de Rocha sinalizavam alinhamento ao bolsonarismo.

O distanciamento, porém, tornou-se evidente no período mais crítico para Bolsonaro. Durante o processo que resultou em condenação e prisão do ex-presidente, Marcos Rocha não se engajou em manifestações públicas de apoio, tampouco se posicionou quando o aliado político enfrentava o ápice da crise. O silêncio contrastou com a retórica de fidelidade exibida em anos anteriores.

A guinada se consolida com a filiação ao PSD, comandado nacionalmente por Gilberto Kassab, ex-ministro do governo de Dilma Rousseff. No plano nacional, o partido projeta disputar as urnas contra Flávio Bolsonaro, nome indicado pelo ex-presidente para a disputa. Em Rondônia, isso significa que Marcos Rocha, à frente do PSD local, terá de fazer campanha contra o candidato do bolsonarismo.

O PSD também se organiza em torno de um projeto presidencial próprio, com três governadores cotados: Ratinho Junior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. Paralelamente, a legenda ocupa hoje três ministérios no governo Lula — Pesca, Agricultura e Minas e Energia — e não descarta integrar uma futura administração federal caso o projeto lulista prevaleça nas urnas.

No tabuleiro regional, a composição também é simbólica. Marcos Rocha se alia ao ex-senador cassado Expedito Junior, que abriu espaço no PSD estadual para que o governador assumisse o comando partidário. Expedito é pai de Expedito Netto, hoje pré-candidato ao governo pelo PT, apesar de ter votado pelo impeachment de Dilma e denunciado a legenda como corrupta à época. A imagem de “um pé em cada canoa” sintetiza a ambiguidade do arranjo.

A contradição ganha contornos mais agudos quando se observa o discurso do próprio Marcos Rocha sobre lealdade. O governador acusa com frequência o vice Sergio Goncalves de traição, ao mesmo tempo em que se afasta do líder político que lhe deu visibilidade política e a quem deve o alto cargo que ocupa.  A metáfora do “criador e da criatura” se impõe: o político forjado no bolsonarismo agora rema em direção oposta ao seu padrinho eleitoral.

Em contraste, o senador Marcos Rogério (PL) continua fiel ao "mito", embora, no passado , também tenha aplicado algumas punhaladas nas costas de seu padrinho e mentor, o ex-senador Acir Gurgaz. Mas isso é uma outra conversa. 

Para o governador,  caso decida disputar o Senado, o  desafio eleitoral é evidente. Rondônia mantém um eleitorado majoritariamente identificado com Bolsonaro, base que elegeu e reelegeu Marcos Rocha. Em uma eventual campanha ao Senado, o governador precisará explicar por que se afastou e traiu o  ex-presidente quando este enfrentou a maior crise de sua trajetória, após ter se beneficiado de seu prestígio para alcançar um posto que, sem essa associação, jamais sonhou ocupar. 

Na política, mudanças de rota são comuns. Ainda assim, permanece a pergunta central: como convencer o eleitor bolsonarista a confiar uma terceira vez em quem rompeu com o projeto que o levou ao poder? A resposta a essa questão tende a definir o futuro eleitoral de Marcos Rocha em Rondônia. 

Não à toa,  alguém já disse que a maior traição que um político pode cometer é contra os eleitores. 

Criador, criatura e a traição ao eleitor bolsonarista

Em Rondônia, Marcos Rocha, à frente do PSD local, terá de fazer campanha contra o candidato do bolsonarismo. Não à toa,  alguém já disse que a maior traição que um político pode cometer é contra os eleitores

RUBENS COUTINHO/EDITOR DO TUDORONDONIA
Publicada em 31 de janeiro de 2026 às 17:56
Criador, criatura e a traição ao eleitor bolsonarista

O governador Marcos Rocha percorre hoje um caminho político que contrasta com a trajetória que o levou ao Palácio Rio Madeira.

Em 2018, então um nome totalmente  desconhecido do eleitorado, sua eleição ocorreu no rastro do capital político de Jair Bolsonaro, fenômeno que se repetiu na reeleição de 2022. Até ali, os discursos de Rocha sinalizavam alinhamento ao bolsonarismo.

O distanciamento, porém, tornou-se evidente no período mais crítico para Bolsonaro. Durante o processo que resultou em condenação e prisão do ex-presidente, Marcos Rocha não se engajou em manifestações públicas de apoio, tampouco se posicionou quando o aliado político enfrentava o ápice da crise. O silêncio contrastou com a retórica de fidelidade exibida em anos anteriores.

A guinada se consolida com a filiação ao PSD, comandado nacionalmente por Gilberto Kassab, ex-ministro do governo de Dilma Rousseff. No plano nacional, o partido projeta disputar as urnas contra Flávio Bolsonaro, nome indicado pelo ex-presidente para a disputa. Em Rondônia, isso significa que Marcos Rocha, à frente do PSD local, terá de fazer campanha contra o candidato do bolsonarismo.

O PSD também se organiza em torno de um projeto presidencial próprio, com três governadores cotados: Ratinho Junior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. Paralelamente, a legenda ocupa hoje três ministérios no governo Lula — Pesca, Agricultura e Minas e Energia — e não descarta integrar uma futura administração federal caso o projeto lulista prevaleça nas urnas.

No tabuleiro regional, a composição também é simbólica. Marcos Rocha se alia ao ex-senador cassado Expedito Junior, que abriu espaço no PSD estadual para que o governador assumisse o comando partidário. Expedito é pai de Expedito Netto, hoje pré-candidato ao governo pelo PT, apesar de ter votado pelo impeachment de Dilma e denunciado a legenda como corrupta à época. A imagem de “um pé em cada canoa” sintetiza a ambiguidade do arranjo.

A contradição ganha contornos mais agudos quando se observa o discurso do próprio Marcos Rocha sobre lealdade. O governador acusa com frequência o vice Sergio Goncalves de traição, ao mesmo tempo em que se afasta do líder político que lhe deu visibilidade política e a quem deve o alto cargo que ocupa.  A metáfora do “criador e da criatura” se impõe: o político forjado no bolsonarismo agora rema em direção oposta ao seu padrinho eleitoral.

Em contraste, o senador Marcos Rogério (PL) continua fiel ao "mito", embora, no passado , também tenha aplicado algumas punhaladas nas costas de seu padrinho e mentor, o ex-senador Acir Gurgaz. Mas isso é uma outra conversa. 

Para o governador,  caso decida disputar o Senado, o  desafio eleitoral é evidente. Rondônia mantém um eleitorado majoritariamente identificado com Bolsonaro, base que elegeu e reelegeu Marcos Rocha. Em uma eventual campanha ao Senado, o governador precisará explicar por que se afastou e traiu o  ex-presidente quando este enfrentou a maior crise de sua trajetória, após ter se beneficiado de seu prestígio para alcançar um posto que, sem essa associação, jamais sonhou ocupar. 

Na política, mudanças de rota são comuns. Ainda assim, permanece a pergunta central: como convencer o eleitor bolsonarista a confiar uma terceira vez em quem rompeu com o projeto que o levou ao poder? A resposta a essa questão tende a definir o futuro eleitoral de Marcos Rocha em Rondônia. 

Não à toa,  alguém já disse que a maior traição que um político pode cometer é contra os eleitores. 

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