O Dj Ivis pode estar do seu lado e você não o vê

A violência mesmo após interrompida persegue a mulher feito uma sombra maligna. Quando ouvir um grito de medo desse, corra pra ajudar!

Luciana Oliveira
Publicada em 14 de julho de 2021 às 17:34
O Dj Ivis pode estar do seu lado e você não o vê

Aos 16 anos fui vítima de violência praticada por um ex-namorado que não aceitava o fim do relacionamento.

Eu disse 16 anos. Imagine sua filha, irmã, você.

Foram vários dias de agressões físicas e ameaças de morte contra minha família.

Foi um sufoco pra me libertar.
Naquela época não tinha Lei Maria da Penha, nem se falava de violência contra a mulher.

Coragem de contar aos meus pais? Nunca! Morria de medo que o agressor os matasse.

Com coragem que tirei não sei de onde o larguei na primeira agressão, mas aí vieram outras e outras.

Sofri várias, nas ruas, na minha escola, onde ia. Ele esperava nas esquinas para me atacar.

Um cunhado me socorreu e o agressor fugiu de Rondônia com medo de peia e de ser denunciado.

Ele era mais velho e gozava de popularidade na cidade.

Morreu recentemente e causou comoção nas redes sociais.
Vi muita gente o agradecer pela sua colaboração no segmento de dança em Porto Velho e por sua humanidade.

Me perguntei: como um sujeito tão mau enganou tanta gente por tanto tempo?

Alguns sabiam que era perverso e mesmo assim teceram muitos elogios após sua morte. Não foi com eles, por que se importar?

Pensei em perguntar por que a quem sabia e dizer a quem não sabia do que ele era capaz.

Duas pessoas próximas me disseram pra perdoar e pedir a Deus o descanso pra ele.

Só pensava: esse não sobe. Esse desce.

Confesso, não me alegrei, mas também não fiquei triste com a morte dele. Foi estranhamente frio o alívio.

Na verdade só pensei que nunca mais sentiria aquele medo paralisante que me acompanhou a vida toda.

Ele havia recentemente voltado pra Porto Velho e quando o reencontrei, garanto, o medo que eu senti foi o mesmo de quando era adolescente.

O chão se abriu quando dei de cara com ele, mesmo hoje sendo uma mulher forte, esclarecida, protegida, desabei de medo.

Quem nunca sentiu esse medo não sabe o que é.

A violência mesmo após interrompida persegue a mulher feito uma sombra maligna.

Quando ouvir um grito de medo desse, corra pra ajudar!

Tudo que eu queria era que alguém corresse pra me ajudar. Muitos viram e nada fizeram.

O #djivis pode estar do seu lado e não o vê.

Uma mulher pode estar gritando e você não ouve.

Eu vivi esse terror.

Mas, aqueles olhos de fúria me encarando, me reduzindo a medo, nunca mais!

Hoje eu vou pra cima quando um homem tenta me parar, me calar. E uns me dizem louca. Não sabem como construí minha coragem.

Fez escuro, o amanhã chegou e hoje eu canto.

#SilenciadasNuncaMais

Luciana Oliveira

Jornalista de Porto Velho, Rondônia, e membro da Comissão Nacional de Blogueiros

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